Federcaccia se posicionou publicamente contra o pedido da Lipu para que os calendários de caça sejam revistos, após a divulgação de um estudo coordenado pela Universidade de Milão e publicado na revista Wildlife Biology. A pesquisa sugere que as migrações de várias espécies de aves teriam se adiantado em razão das mudanças climáticas, o que poderia elevar o risco de derrubadas durante a temporada de caça — argumento usado pela Lipu para solicitar o encerramento antecipado da caça.
Em nota assinada pelo seu Escritório de Estudos e Pesquisas Faunísticas e Agroambientais, a Federcaccia afirma ter analisado com atenção tanto o artigo científico quanto a cobertura publicada pela Espresso Italia e aponta pontos que, segundo a federação, tornam as conclusões passíveis de questionamento. Entre as críticas está a utilização, em parte do levantamento, de dados oriundos de projetos na Grécia baseados em citizen science — observações coletadas com a participação de voluntários.
A entidade sustenta que o emprego de dados de citizen science seria, na visão de seus representantes, pouco robusto para sustentar mudanças nas normas que regulam a caça. Ao mesmo tempo, a federação reconhece que muitos projetos científicos legítimos se apóiam em observações cidadãs para monitoramento e que, inclusive, associações de caçadores participam dessas iniciativas, que são amplamente aceitas pela comunidade científica quando bem estruturadas.
No documento integral que a Federcaccia disponibilizou, a organização também contesta referências utilizadas na reportagem — classificando como jornalística, por exemplo, certa apresentação ligada ao WION Climate Tracker — e reclama da extrapolação de dados de diferentes contextos (Itália e Grécia) para sustentar uma mudança generalizada dos calendários administrativos regionais.
O estudo publicado em Wildlife Biology, conduzido com a colaboração da Lipu e de outras organizações, analisa 23 espécies de aves potencialmente caçáveis e indica tendências de alteração fenológica que, se confirmadas de forma ampla, poderiam justificar a revisão das datas de fechamento das temporadas. A Lipu defende que políticas públicas sobre caça devem acompanhar as evidências científicas para proteger a conservação das espécies.
Da mesma forma, a Federcaccia pede cautela: para a federação, antes de qualquer mudança regulatória, é necessário consolidar séries temporais mais longas, padronizar metodologias e avaliar as variabilidades locais que afetam a fenologia das aves migratórias. Em seu posicionamento, a federação sugere aprofundamento técnico e diálogo institucional como caminhos mais sensatos do que decisões precipitadas.
Esse embate — entre o apelo da conservação baseado em estudos científicos e a defesa de práticas cinegéticas amparadas em outro conjunto de evidências — ilumina um ponto central: a necessidade de construir políticas públicas que sejam ao mesmo tempo rigorosas e socialmente legítimas. É preciso tecer laços entre cientistas, organizações ambientais e associações de caçadores para semear soluções realizáveis.
Enquanto a discussão prossegue nos fóruns científicos e administrativos, a proposta da Lipu permanece como um convite à revisão das normas à luz do potencial avanço das migrações observado em alguns estudos. Por outro lado, a resposta da Federcaccia é um lembrete de que mudanças regulatórias exigem base metodológica sólida e consensos técnicos. Em tempos de rápidas transformações climáticas, a melhor trilha é aquela que combina ciência robusta, monitoramento contínuo e diálogo público aberto — para assim iluminar novos caminhos e garantir um legado equilibrado entre uso humano e conservação.






















