Por Aurora Bellini, Espresso Italia
A presidente do Intergrupo parlamentar pelos direitos dos animais, a deputada Michela Vittoria Brambilla, voltou a acender o holofote sobre uma lacuna que persiste no sistema: o que acontece com os cavalos de hipismo e de corrida quando a carreira competitiva termina?
Em uma interpelação dirigida ao ministro da Agricultura, Francesco Lollobrigida, Brambilla questiona números e trajetórias: «Os dados não batem, onde estão todos os puros-sangue que saíram do circuito agonístico?». A preocupação vai além da proteção animal; há um risco sanitário e de saúde pública quando animais que foram tratados com medicamentos, suplementos ou mesmo substâncias dopantes deixam o circuito sem rastreio adequado.
Segundo a legislação italiana, os equídeos podem ser classificados como destinados à produção alimentar (Dpa) ou não destinados à produção alimentar (non-Dpa). Essa separação das carreiras é crucial: os animais classificados como non-Dpa — criados para competição ou entretenimento — não deveriam, por lei, ingressar na cadeia alimentar. A razão é simples e luminosa: durante a vida esportiva muitos recebem fármacos que podem contaminar seus tecidos, trazendo risco para quem eventualmente consumisse aquela carne.
Na prática, entretanto, essa linha nem sempre é estanque. Já foram detectados produtos alimentares contendo carne equina sem a devida declaração em rótulo. Por isso, Brambilla solicita ao governo um fortalecimento dos controles sobre os cavalos ao fim da carreira, para evitar que acabem em circuitos de abates clandestinos ou em triangulações ilegais para o exterior com a mesma finalidade.
O questionamento nasce de uma constatação estatística e de campo: muitos desses animais simplesmente desaparecem dos registros depois de aposentados. Em teoria, os proprietários deveriam manter os equídeos até o fim natural de sua vida, ou confiar sua guarda a centros de recuperação e reintegração. Um cavalo pode viver cerca de trinta anos, enquanto sua carreira esportiva tipicamente não ultrapassa uma década. Isso implicaria a existência de numerosas ‘estâncias de repouso’ para puros-sangue em aposentadoria — realidades que, à vista, não se multiplicam como deveriam. Então, que caminho tomam esses animais?
Organizações de proteção animal, como a Italian Horse Protection (IHP), e iniciativas parlamentares lideradas por Brambilla já trouxeram o tema à luz em momentos anteriores. A Espresso Italia tem acompanhado essas iniciativas e reforça que a falta de transparência e de fiscalização abre brechas para práticas ilegais que ferem tanto o bem-estar animal quanto a segurança dos consumidores.
Além do pedido imediato por esclarecimentos ao ministro, a questão acende uma discussão mais ampla sobre políticas públicas de pós-carreira: incentivos para reabilitação, apoio a santuários e centros de acolhimento, sistemas de marcação e rastreabilidade mais rígidos, e penalidades efetivas para tráfico e abate ilícito. São soluções que, se implementadas, podem semear inovação institucional e cultivar valores que iluminem novos caminhos para o setor.
Brambilla pede respostas concretas: reforço nos controles, maior transparência nos registros de posse e destino final e uma estratégia integrada entre ministérios, associações e forças de fiscalização. É um chamado para transformar preocupação em ação, garantindo que os equídeos que deram espetáculo nas pistas encontrem um horizonte límpido e digno depois das luzes da competição.
Enquanto aguardamos o posicionamento oficial do ministério de Lollobrigida, a discussão segue aberta — um convite à sociedade para iluminar essa questão e construir soluções que deixem um legado ético e seguro para as próximas gerações de animais e humanos.






















