Por Aurora Bellini — A publicação do decreto governamental que altera o DPR 357, agora registrada na Gazetta Ufficiale, marca um ponto de inflexão na política de conservação italiana: o declassamento do lobo sai da categoria «rigorosamente protetto» e passa a ser simplesmente «protetto». À primeira vista, a mudança pode parecer apenas semântica; em profundidade, ela ilumina um novo horizonte regulatório que facilita a adoção de medidas de contenção da espécie.
Segundo o parecer técnico do Ispra — o Instituto Superior para a Proteção e Pesquisa Ambiental —, a leitura prática desse ajuste constitucional prevê que, em todo o território nacional, o total de abates não poderá ultrapassar 160 exemplares, num universo estimado de cerca de 3.500 lobos que compõem a população italiana. Esse teto nacional funciona como um limite máximo, não como uma quota automática distribuída entre regiões.
Diversas regiões já anunciaram a abertura de estudos e análises para definir planos de intervenção adaptados às realidades locais. No entanto, é importante sublinhar que não se trata de uma licença de matar generalizada. A lei 157/1992, que disciplina a caça e a gestão da fauna selvagem, permanece em vigor e ainda classifica o lobo como formalmente «rigorosamente protetto» em seu corpus legal. Além disso, os números indicados pelo Ispra devem ser interpretados no contexto do equilíbrio ecológico: cada decisão regional terá de considerar impactos sobre a conservação e a integridade dos ecossistemas.
As associações ambientalistas reagiram de forma veemente à rápida recepção da norma. Organizações como WWF e ENPA alertam para o risco de contenciosos judiciais e criticam a celeridade com que o governo transcreveu as diretivas europeias para o ordenamento jurídico nacional — um movimento que, segundo essas vozes, não era uma obrigação, mas uma faculdade. Há quem veja nessa pressa a intenção de acomodar pressões de setores agropecuários e políticos próximos aos produtores rurais.
Outra preocupação entre os defensores da fauna é a possibilidade de que o papel técnico-científico do Ispra seja progressivamente esvaziado em decisões regionais, especialmente em governos locais que há muito contestam as limitações impostas por avaliações científicas. Em palavras que vêm iluminando debates públicos: o declassamento abre portas administrativas, mas não apaga a necessidade de rigor científico e legal antes de qualquer intervenção letal.
Do ponto de vista internacional, a alteração italiana segue um movimento mais amplo: a revisão da convenção de Berna e ajustes na Diretiva Habitats, apoiados pelo Parlamento Europeu, Comissão e Conselho da UE, vêm reconfigurando o mapa de proteção de grandes carnívoros. Até a Alemanha sinalizou posições que permitem abatimentos em certas circunstâncias, mostrando que a questão transcende fronteiras e exige respostas coordenadas.
Enquanto isso, o país se divide entre quem reclama medidas para proteger rebanhos e quem defende a manutenção de um equilíbrio que saiba respeitar a presença do lobo como elemento vital dos ecossistemas. É chegada a hora de semear políticas que conjuguem prevenção de conflitos, compensações justas e vigilância científica — uma prática luminosa, que pode nos ajudar a tecer uma convivência possível entre natureza e produção humana.
Na Espresso Italia, acompanharemos os desdobramentos legais e ambientais, iluminando caminhos de diálogo entre ciência, campo e sociedade, e cobrando que qualquer decisão preserve o legado natural que herdamos.






















