É preciso um tipo especial de coragem para ser domador de grandes felinos. Mas é preciso uma coragem talvez ainda maior para decidir abandonar esse papel — especialmente quando se chama Stefano Orfei e carrega nas costas o legado de uma das famílias circenses mais icônicas da Itália. Junto com a esposa, a atriz Brigitta Boccoli, Stefano anunciou recentemente o fim das apresentações com animais em seu espetáculo, reconhecendo que os tempos mudaram e que a sensibilidade do público agora exige caminhos diferentes.
Não se trata de renegação. Pelo contrário: Stefano e Brigitta afirmam com clareza o vínculo profundo que viveram — e ainda cultivam — com os animais que acompanharam sua trajetória. Esses laços, feitos de afeto, dedicação e também de sacrifícios, são parte da história de muitos artistas do picadeiro. Ainda assim, a reflexão pública sobre o bem‑estar animal e as condições em que espécies selvagens vivem para o entretenimento trouxe à tona uma questão ética que já não pode ser varrida para debaixo da lona.
É simbólico que o gesto venha de alguém que carrega o sobrenome Orfei, família eternizada por figuras como a icônica Moira Orfei, a quem o público tantas vezes associou ao brilho e ao brilho dos espetáculos com grandes animais. Mesmo assim, essa decisão não diminui a importância da tradição: ilumina uma evolução — um renascimento — na maneira como pensamos o circo, a arte e a responsabilidade social.
Os circos tradicionais enfrentam hoje uma crise de audiência; arquibancadas vazias tornaram-se imagem frequente. Nem mesmo nomes lendários como o Circo Barnum resistiram às transformações culturais e econômicas, encerrando uma trajetória de 146 anos. Mas o problema central não é o circo enquanto forma artística: é a permanência de práticas incompatíveis com a natureza das espécies selvagens quando mantidas em cativeiro. O espetáculo continua possível — e prospera — quando se reinventam as linguagens cênicas. O sucesso do Cirque du Soleil, por exemplo, demonstra que espetáculos sem animais podem competir com grandes produções teatrais e atrair plateias cheias.
Ao optar por retirar os animais do show, Stefano Orfei e Brigitta Boccoli sugerem caminhos práticos para essa transição: valorizar a perícia humana do artista, investir em cenografia, acrobacia, iluminação e narrativa — elementos que transformam o picadeiro em palco de inovação. Em paralelo, abre‑se a responsabilidade de proteger e garantir qualidade de vida a animais que foram historicamente parte desse universo, buscando soluções como santuários e programas de reabilitação e acolhimento.
Há também um debate público sobre o papel do Estado: os circos, reconhecidos como atividade artística, recebem subsídios e proteção. Essa condição merece uma revisão sensível, que preserve as artes circenses enquanto promove políticas de bem‑estar animal e incentiva formas de espetáculo que não dependam do confinamento de espécies selvagens.
Do ponto de vista humano e simbólico, a decisão de um nome como Orfei é um farol: ilumina novos caminhos e convida a sociedade a semear inovação sem perder o respeito pelas raízes. Não é um gesto de negação, mas de transformação consciente — um convite para que a tradição encontre um horizonte límpido, em que a cultura circense continue a florescer, com ética e dignidade.
Para quem ama o circo, para quem valoriza a arte e para quem se importa com o futuro dos animais, essa escolha é um sinal de progresso: os artistas continuam a encantar, mas agora com olhos voltados para o cuidado, a preservação e o legado. A luz que sai do picadeiro, assim, passa a iluminar também o caminho do bem‑estar e da inovação.






















