Por Aurora Bellini — Em uma pesquisa que ilumina caminhos antigos da vida social dos nossos parentes mais próximos, cientistas do Imperial College London concluem que os comportamentos homossexuais entre primatas não são meros incidentes biológicos, mas estratégias sociais que consolidam laços, reduzem tensões e aumentam a resiliência dos grupos diante de desafios ambientais e sociais.
Publicado na revista Nature Ecology & Evolution, o estudo é uma síntese abrangente da literatura científica sobre o tema. Nele, os autores identificam que, entre 491 espécies de primatas pesquisadas, pelo menos 59 exibem comportamentos homoafetivos observáveis. Se ampliarmos o espectro além dos primatas, o número de espécies com registros supera as 1.500, indicando que essas práticas são uma parte difundida e antiga do repertório comportamental animal.
Os pesquisadores destacam que, em muitos casos, os atos eróticos entre indivíduos do mesmo sexo — que vão desde toques íntimos e carícias até monta ou estimulação genital — funcionam como mecanismos de coesão social. Em situações de escassez de recursos, maior aridez do ambiente ou presença elevada de predadores, esses comportamentos contribuem para baixar a tensão, fomentar a cooperação e permitir que os grupos enfrentem as adversidades com maior solidariedade.
Um exemplo apontado na pesquisa é o dos macacos rhesus de Porto Rico, estudados por anos por Vincent Savolainen. Entre esses macacos, machos que interagem sexualmente entre si às vezes formam coalizões que podem resultar em maior acesso a parceiras e, consequentemente, a mais descendentes — uma função social e reprodutiva indireta. Em espécies como o gorila-das-montanhas, em que há grande dimorfismo entre machos e fêmeas e intensa competição por acasalamento, essas dinâmicas também aparecem como forma de gestão social e alívio de conflitos.
Os autores lembram que essa variedade de expressões sexuais é tão importante para a vida social quanto o cuidado parental, a defesa contra predadores ou a busca por alimento. O fenômeno, antes muitas vezes tratado como anedótico, é reinterpretado como um componente adaptativo do comportamento social, capaz de fortalecer alianças e reduzir o estresse coletivo em momentos críticos.
Segundo Savolainen, em declaração à Espresso Italia, a diversidade de comportamentos sexuais “é muito comum na natureza” e desempenha papéis sociais fundamentais. Essa análise lança uma nova luz sobre a evolução do comportamento sexual, afastando interpretações simplistas e mostrando que, mesmo em termos darwinianos, ações que aparentam não favorecer diretamente a reprodução podem ter benefícios sociais e indiretos para a sobrevivência e sucesso reprodutivo do grupo.
Como curadora de progresso e observadora dos matizes humanos e não humanos, vejo aqui um ensinamento iluminador: entender a sexualidade animal em toda sua complexidade nos ajuda a cultivar valores de empatia e cooperação. Essas descobertas semeiam inovação no modo como concebemos relações sociais — no reino animal e, por reflexão, dentro das nossas próprias comunidades humanas —, revelando que alianças e intimidade são ferramentas poderosas para enfrentar crises e construir um horizonte mais límpido e solidário.
Em suma, os “jogos” e rituais sexuais entre indivíduos do mesmo sexo nos primatas são menos um paradoxo e mais um mosaico funcional de respostas sociais: aliviam a ansiedade, reforçam laços e ajudam a espécie a prosperar mesmo quando o cenário ao redor é adverso. É uma centelha de entendimento que ilumina novas possibilidades sobre como a evolução tece laços e sustenta coletivos.






















