Por Aurora Bellini, Espresso Italia
Uma sombra sobreviveu por pouco nas encostas de Chiang Mai. Nas últimas semanas, 72 tigres morreram rapidamente por complicações de um agente infeccioso em um parque zoológico do norte da Tailândia, segundo análises veterinárias locais e levantamento da nossa equipe. A perda expõe fragilidades de um modelo de turismo que mistura espetáculo e contato íntimo com animais selvagens, e revela a urgência de rever práticas que colocam em risco vidas e legados.
Os exames laboratoriais realizados nas carcaças identificaram a presença do vírus do cimurro canino (Canine Distemper Virus – CDV), um agente que, embora conhecido por atacar canídeos, também acomete felinos de grande porte. O vírus compromete principalmente os sistemas gastrointestinal e imunológico, provocando vômitos, diarreia hemorrágica, febre alta, letargia, perda de apetite e elevadas taxas de mortalidade quando não detectado precocemente.
Além do CDV, foi constatada uma infecção secundária por bactérias do gênero Mycoplasma, frequentemente associadas a problemas respiratórios. Dezenas de tigres começaram a apresentar os primeiros sinais da doença em 8 de fevereiro e, em um período de 11 a 12 dias, muitos evoluíram rapidamente para óbito.
Os óbitos ocorreram em dois recintos principais: 21 tigres morreram na área de Mae Rim e 51 na área de Mae Taeng, totalizando 72 perdas. Cerca de 124 tigres permanecem vivos no local e estão sendo monitorados. O parque conhecido como Tiger Kingdom Chiang Mai foi fechado temporariamente enquanto equipes realizam desinfecção completa, isolamento dos animais saudáveis e preparam um plano de vacinação para os exemplares restantes.
Mais de 100 funcionários e veterinários que atuam no parque também estão sendo acompanhados: até o momento, não há registro de transmissão para seres humanos. “Tratar tigres é muito diferente de tratar cães e gatos. Animais domésticos vivem em proximidade conosco e os sinais aparecem mais cedo, permitindo intervenção imediata. Em felinos selvagens, muitas vezes só percebemos quando a doença está avançada”, explicou Somchulan, diretor do Departamento de Criação da Tailândia, em comunicado aos meios locais.
Em nota à Espresso Italia, a organização PETA responsabilizou a dinâmica do turismo por parte do desastre, argumentando que a comercialização do contato com animais torna esses espaços economicamente vantajosos, mas epidemiologicamente vulneráveis. “Se as pessoas não visitassem locais que incentivam a manipulação próxima, esses ambientes seriam menos lucrativos e tragédias como esta seriam menos prováveis”, afirmou a entidade.
As medidas adotadas pelo parque incluem: fechamento por 14 dias, desinfecção completa das instalações, isolamento dos animais saudáveis e um programa de vacinação em preparação, além do monitoramento contínuo da equipe. A comunidade científica alerta para a necessidade de protocolos mais rigorosos de biossegurança em instalações que mantêm espécies selvagens em contato com humanos.
Enquanto as luzes se apagam temporariamente sobre o Tiger Kingdom Chiang Mai, fica o convite para que o setor turístico e as instituições repensem práticas que colocam em risco não apenas exemplares emblemáticos, mas também a credibilidade de um turismo que aspira iluminar caminhos sustentáveis. É hora de semear mudanças: preservar a vida dos tigres exige ética, ciência e um olhar que cultiva um horizonte límpido para as próximas gerações.





















