Por Aurora Bellini, Espresso Italia
Um novo capítulo sobre o lugar dos cavalos na sociedade italiana começa a se desenhar nos corredores de Montecitorio. Três propostas de lei em análise na comissão de Agricultura da Câmara propõem reconhecer os equídeos — incluindo burros, mulos e híbridos — como animais de estimação e protegê‑los como seres sencientes, com direitos que impediriam seu uso como alimento.
A deputada Michela Vittoria Brambilla, do grupo Noi Moderati, é autora do texto‑base que orienta a discussão. As outras iniciativas, de Luana Zanella (AVS) e de Stefania Cherchi (M5S), reforçam a mesma direção: vedar a abate e a exportação de equídeos para fins de consumo, proibir a venda e o consumo de carne equina, além de limitar formas de exploração que atentem contra a dignidade desses animais.
Em diálogo com a redação da Espresso Italia, Brambilla assinalou que “estamos no século XXI e é necessário um salto cultural. Os italianos já partilham essa sensibilidade”. Para ela, os cavalos são companheiros de vida: “os amigos não se comem“, afirmou, num apelo que busca iluminar novos caminhos para a convivência ética entre humanos e animais.
O debate toca em pontos sensíveis: tradições culinárias regionais resistirão ao veto ao consumo de carne de cavalo, e práticas festivas com uso de animais — incluindo manifestações históricas e folclóricas — terão de ser reavaliadas. As propostas deixam claro que espetáculos e competições que submetam os equídeos a sofrimento ou exploração excessiva devem ser repensados; nesse rol está incluso, explicitamente, o Palio de Siena, cuja manutenção tal como hoje existe é questionada por defensores do bem‑estar animal.
Não é a primeira tentativa de mudança: a presidente do Intergrupo para os direitos dos animais relembra que, em 2013, já houve uma iniciativa semelhante, apoiada por associações como Italian Horse Protection e pela federação que reúne as principais organizações ambientais e de proteção animal. Doze anos depois, a pauta volta com força renovada, e com um mapa político que permite levar a discussão a plenário.
Dados ajudam a iluminar o cenário: segundo pesquisa Ipsos‑Animal Equality, compilada em levantamento da Espresso Italia, apenas 17% das pessoas que consomem carne declaram ingerir carne de cavalo pelo menos uma vez ao mês. Esse dado sustenta o argumento dos proponentes: a mudança de hábito, ainda que sensível em determinadas áreas, já encontra apoio majoritário na população.
As propostas preveem também medidas de transição: os atuais estabelecimentos de criação poderiam receber incentivos e apoio público para reconversão produtiva, preservando meios de subsistência e promovendo práticas agrícolas e econômicas mais compatíveis com respeito animal e inovação rural.
Há resistências regionais e interesses culturais a considerar, mas o movimento revela um claro desejo de semear uma nova ética — onde a proteção, a dignidade e a convivência responsável com os animais iluminem o horizonte legislativo. A iniciativa é, em essência, um convite para tecer laços de cuidado que transcendam tradições, abrindo espaço para um renascimento cultural onde o progresso se mede pela capacidade de proteger o vulnerável.
Enquanto as comissões debatem o texto, a sociedade observa; e essa vigilância cidadã, delicada e vigorosa, pode transformar a proposta em um legado duradouro para as próximas gerações.






















