Por Aurora Bellini — Em mais um gesto que ilumina laços e desafia tensões, o Carnaval dos cães chegou a Capitol Hill com fantasias, rabos abanando e um propósito de convivência que ultrapassa filiações partidárias. A tradicional festa canina promovida no coração do Senado foi organizada pelo senador Thomas Tillis, da Carolina do Norte, e reuniu dezenas de animais de estimação e seus tutores entre sorrisos e questionamentos públicos.
O desfile, realizado com uma semana de atraso, ocupou os corredores do Senado e trouxe à cena o já conhecido “Doggy Gras”, apelidado oficialmente de Bipawtisan Pawrade — um trocadilho em inglês que celebra as paws (patas) e a natureza bipartidária do evento. A iniciativa, que acontece anualmente, pode ter sido a última organizada por Tillis, que anunciou que deixará o cargo ao final deste ano; ainda não há indicação clara de quem assumirá a tradição em 2027.
O momento, porém, foi marcado por um pano de fundo tenso: o atual shutdown do governo federal — um bloqueio nas atividades causado pela falta de aprovação do orçamento — tem deixado muitos serviços à espera e alimentado críticas à realização de um evento festivo em plena crise institucional. Nas redes sociais e em alguns corredores do Congresso, houve quem questionasse a prioridade de organizar uma festa enquanto trâmites orçamentários seguem sem solução.
Em contrapartida, defensores da celebração argumentaram que o encontro foi justamente uma pausa necessária para restaurar relações humanas num ambiente de trabalho historicamente polarizado. O próprio senador Tillis afirmou que a presença de cães no Senado promove “relações melhores e um ambiente mais sereno e produtivo” — uma defesa pública do valor social de momentos que cultivam empatia e diálogo entre equipes e representantes de diferentes espectros políticos.
Entre os protagonistas peludos, destacou-se Babydog, a mascote informal que virou símbolo de paz entre republicanos e democratas nas dependências de Capitol Hill. A imagem de clientes do Senado posando com seus animais, alguns vestidos em trajes carnavalescos, foi celebrada por muitos como uma cena de humanidade que ilumina os corredores do poder.
As críticas não se limitaram ao discurso: houve vozes que consideraram o evento um desvio de recursos e tempo, especialmente em dias de incerteza orçamentária. Ainda assim, para uma parcela do staff e dos parlamentares presentes, o encontro foi um lembrete prático de que laços pessoais podem traduzir-se em melhor colaboração institucional. “Quem tem um cão e o desejo de participar participa, independentemente do partido”, disse Tillis em declaração à equipe da Espresso Italia, ressaltando o caráter inclusivo da iniciativa.
Além do aspecto simbólico, o evento cumpriu um papel social: aproximar servidores, lobistas e parlamentares em algo aparentemente simples — o cuidado por um animal — que revela horizontes mais límpidos para a convivência política. Mesmo em meio a críticas, a Bipawtisan Pawrade mostrou que pequenos gestos podem semear inovação nas relações públicas e no ambiente de trabalho.
Ao fim do dia, enquanto as luzes dos corredores se apagavam, ficou a sensação de que momentos assim ajudam a construir uma cultura política menos ríspida e mais humana. Como curadora de progresso, vejo nessa imagem — cães alegres entre senadores cansados — a possibilidade de um renascimento ético: cultivar valores em atos cotidianos, tecer laços sociais que iluminam novos caminhos e lembram que, por vezes, a empatia começa por um simples afago.
Se será mantida a tradição, dependerá agora de vontade política e de quem sucederá Tillis. Mas o legado é claro: apesar das discordâncias e do debate público, o Carnaval dos cães em Capitol Hill deixou uma marca que fala de união, trabalho e do pequeno brilho que um gesto de carinho pode trazer à máquina do poder.






















