Por Aurora Bellini — Em tempos em que buscamos iluminar novos caminhos para a convivência entre humanos e animais, recentes episódios envolvendo pitbull reacendem uma pergunta dolorosa: por que a política permanece inerte diante de um problema que pede colaboração e regras claras?
No período das festas que acabou de passar, três casos com participação de pitbull ganharam as manchetes. Em Roma, na noite de São Silvestre, um homem foi atacado dentro de sua casa; sua mulher reagiu com uma faca e o cachorro foi morto. O marido sofreu ferimentos graves e foi internado, mas seu quadro não chegou a ser fatal. Em Scafati, na província de Salerno, a vítima foi uma criança de apenas um ano, mordida na cabeça. Também sofreu ferimentos graves, mas sobreviveu. O terceiro animal foi encontrado morto na faixa de areia da praia de Castel Volturno, com o corpo cheio de feridas — provavelmente abandonado após perder em uma rinha clandestina.
Seria equivocado falar em uma “emergência pitbull” como única leitura possível. No entanto, os fatos mostram que determinadas raças — em particular os molossoides, os terriers de tipo bull e os cruzamentos semelhantes — exigem uma gestão consciente e experiente. Não são cães “para todos”. Ainda há muitos tutores que optam por esses animais sem a devida preparação, sem formação, sem responsabilidade. E, em alguns contextos, a escolha tem fins ilícitos: animais usados em brigas clandestinas ou como guardiões em atividades criminosas.
O episódio de Scafati teve um desdobramento político local. O prefeito Pasquale Aliberti manifestou solidariedade à família da criança ferida e, pelo veículo oficial de comunicação, pediu às instituições normas claras sobre o tema. É significativo — e é uma luz sobre a administração cotidiana — que esse apelo tenha vindo de um gestor municipal de médio porte, e não exclusivamente de alguma figura nacional sempre em evidência. Os prefeitos carregam a responsabilidade da segurança local e sabem, pela prática, que necessitam de instrumentos mais precisos para agir.
No atual arranjo institucional, a segurança de ruas e praças compete à polícia e aos carabinieri; a magistratura aplica penas quando cabíveis. Mas há um vazio: quem regula e orienta a gestão preventiva dos animais? Até que ocorram agressões, os cães permanecem sob a responsabilidade dos proprietários. Quando as agressões acontecem, muitas vezes dentro do próprio ambiente familiar, o dano já está feito.
Existem diversas propostas de lei destinadas a enfrentar a questão dos cães agressivos. O problema, porém, é que permanecem guardadas em gavetas — não por falta de preocupação, mas por falta de acordo sobre medidas concretas. É preciso unir ciência veterinária, políticas públicas, agentes de segurança, educação social e a sociedade civil para construir soluções eficazes.
As medidas devem incluir identificação e registro rigorosos, programas de avaliação comportamental, formação para tutores, campanhas de conscientização, mecanismos para coibir rinhas e punições proporcionais a práticas criminosas que envolvem animais. Tudo isso com um olhar humano e técnico: não se trata de estigmatizar raças, mas de proteger pessoas e animais, cultivando valores que ampliem o bem comum.
Como curadora de progresso, vejo essa pauta como uma oportunidade de semear inovação normativa. Reunir conhecimento técnico, práticas de bem-estar animal e políticas de prevenção pode tecer laços sociais mais seguros e um horizonte límpido para a convivência. A luz que precisamos lançar é dupla: sobre as causas das agressões e sobre a formação ética e prática de quem escolhe adotar um companheiro de quatro patas.
Enquanto o debate fica retido em gabinetes, o risco continua a bater à porta de famílias e comunidades. Que a reação não seja apenas de espanto: que seja um movimento organizado de políticas, educação e responsabilidade.





















