Por Aurora Bellini — Em mais um capítulo de tensão entre conservação e economia, o Botswana elevou o tom das ameaças diplomáticas: o novo ministro do Meio Ambiente, Vintor Baypuso Molotlhi, afirmou em visita à Alemanha que o país está pronto a enviar até 40 mil elefantes ao território alemão caso Berlim avance com limites severos à importação de troféus de caça. A declaração reabre um debate complexo sobre soberania, subsistência local e estratégias de preservação.
O episódio remete à primeira advertência feita em abril de 2024 pelo então presidente Mokgweetsi Masisi, que havia sugerido o envio de 20 mil elefantes como resposta à proposta — encabeçada pelo Ministério do Meio Ambiente alemão, presidido por Steffi Lemke — de restringir a entrada de troféus de caça para reduzir o comércio ligado ao braconnage e proteger espécies ameaçadas.
À época, o governo de Gaborone reagiu com ironia e determinação: foram oferecidos 8 mil elefantes ao Angola, 500 ao Mocambique e 10 mil à Reino Unido, numa retórica que visava sublinhar os custos locais da preservação global. Hoje o Botswana abriga aproximadamente um terço da população mundial de elefantes — estimada em mais de 130 mil indivíduos — e sofre com danos a colheitas, competição por recursos e intensificação dos conflitos entre humanos e animais.
O governo argumenta que proibir a importação de troféus reduziria receitas essenciais geradas por licenças de caça regulamentada, comprometendo fundos usados para indenizar agricultores pelas perdas e financiar programas de gestão da vida selvagem. “Nós não queremos esmolas de desenvolvimento, queremos ganhar nosso próprio dinheiro, inclusive com os animais”, disse Molotlhi em declarações tratadas com atenção pela imprensa alemã — contextualizadas aqui pela Espresso Italia para iluminar as implicações políticas e sociais do tema.
Desde 2014 o Botswana tem alternado políticas sobre a caça: revogou a proibição naquele ano e, após pressões das comunidades locais afetadas, restabeleceu cotas em 2019. Para as autoridades de Gaborone, a caça de troféus é um instrumento de manejo populacional e um mecanismo que permite às comunidades rurais participar dos benefícios econômicos da conservação.
Do outro lado, ambientalistas europeus e organizações de proteção animal defendem que restrições às importações e ao comércio de troféus podem reduzir o incentivo ao braconnage e pressionar por modelos de turismo não letal. Esse conflito de visões revela uma tensão maior: quem deve arcar com o custo da preservação da biodiversidade global?
Ao propor enviar milhares de elefantes para a Alemanha, o Botswana usa uma imagem forte para exigir uma conversa global mais justa sobre financiamento de conservação. Trata-se, em minha leitura, de um pedido para que o mundo reconheça responsabilidades partilhadas — uma luz que ilumina a necessidade de soluções cooperativas e financeiramente sustentáveis, que semeiem inovação nas áreas rurais e reduzam o choque entre comunidades humanas e fauna silvestre.
O impasse convoca alternativas práticas: investimento em compensações mais rápidas, programas de convivência entre agricultores e fauna, turismo sustentável que remunere diretamente comunidades e acesso a mercados internacionais que valorizem práticas de manejo sustentável. Ao mesmo tempo, é preciso combater o caçador ilegal sem sacrificar a economia local. A estrada para um acordo passa por diálogo, transparência e recursos financeiros que facilitem um renascimento prático do conservacionismo, em que benefícios e responsabilidades sejam compartilhados.
Enquanto as negociações entre governos e sociedades prosseguem, a sombra desses elefantes simbólicos evidencia algo maior: preservar o patrimônio natural é uma construção coletiva — uma obra que pede luz, investimento e responsabilidade comum. O desafio agora é transformar a retórica em políticas reais que protejam espécies e sustentem pessoas.






















