Por Aurora Bellini, Espresso Italia
O retrato mais recente do cuidado com os animais de companhia revela um fenômeno que ilumina tanto fragilidades sociais quanto lacunas nas políticas públicas: cresceu de forma preocupante o número de pessoas que entregam seus animais a associações e abrigos. Segundo dados da Enpa repassados à Espresso Italia, quase 20 mil cães, gatos e outros pets foram formalmente cedidos a seus refúgios ao longo de 2025.
É importante distinguir o gesto formal da entrega — a cessão — da prática ilegal e cruel do abandono nas estradas. A cessão nasceu como um mecanismo de proteção: o proprietário solicita que uma entidade assuma o animal quando não consegue mais cuidar dele, frequentemente acompanhado de uma declaração sobre sua incapacidade — por doença, pobreza ou outra emergência. Na teoria, esse instrumento deveria evitar cenas de abandono à beira de estradas e assegurar encaminhamentos mais dignos.
No entanto, conforme relatado à Espresso Italia pela Enpa, a ferramenta tem sido usada de forma rotineira e, em muitos casos, simplificada: declarações não são cruzadas com dados dos serviços sociais municipais e, por isso, não há garantias de que a entrega seja fruto de real impossibilidade de cuidado. Assim, o que era um caminho de proteção transforma-se, na prática, numa nova forma de abandono — socialmente mais aceita, porém com as mesmas consequências traumáticas para os animais.
Para o animal, explica a entidade, a ruptura é violenta. Trocar o lar e os laços de afeto por um box em um canil ou um abrigo é epifania de solidão e intimidação: rotinas desfeitas, odores e vozes estranhas, o espaço reduzido. Mesmo que menos chocante aos olhos humanos do que encontrar um cão ou gato na beira da estrada, a cessão pode condenar animais a longos períodos de confinamento — às vezes, para sempre.
Houve avanços na prevenção do abandono clássico: a exigência do microchip elevou a chance de responsabilização e desencorajou atitudes criminosas. Contudo, esse progresso empurrou o problema para formas mais burocráticas, que não substituem acompanhamento social, suporte financeiro ou orientação para a criança e a família que dividem a vida com um animal.
Nem todas as entregas, frisa a Enpa em comunicado à Espresso Italia, decorrem de crises legítimas. Há casos de decisões impulsivas — um animal adotado por impulso, um filhote desejado como objeto temporário ou a simples vontade de “se livrar” de um compromisso. Seja qual for a motivação, o resultado é o mesmo: um ser vivo perde seu lar e precisa reconstituir confiança.
Como sociedade, podemos iluminar novos caminhos: apoiar políticas que integrem serviços sociais e protetores de animais; reforçar campanhas sobre a adoção consciente e a importância do planejamento antes de receber um pet em casa; e fortalecer redes de ajuda para tutores em dificuldades temporárias. Abrigos e voluntários fazem o melhor com recursos limitados, mas a solução é coletiva — semear responsabilidade exige consciência individual e estruturas que acolham famílias em crise.
Para quem deseja agir hoje: informe-se sobre adoção responsável, considere o suporte financeiro ou material a abrigos locais e busque programas de reeducação comportamental antes de optar pela entrega. A generosidade bem dirigida pode transformar o desalento em renascimento — um horizonte límpido para quem precisa recomeçar.






















