Por Aurora Bellini — Em um apelo sereno e firme, cinco organizações nacionais pedem ao Senado italiano uma pausa de um ano antes de qualquer decisão sobre o declassamento do lobo. Enpa, Lav, Lndc, Wwf Italia e a Fondazione Capellino reclamam uma moratória técnica que permita aos parlamentares refletir com calma, à luz da ciência, e não movidos pela emoção ou por slogans políticos.
As entidades anunciaram também o lançamento de uma iniciativa de lei popular para mobilizar cidadãos e preservar um debate público baseado em evidências científicas. A preocupação central é clara: um eventual afrouxamento da proteção do lobo pode abrir caminho a abates indiscriminados, sem, contudo, resolver de forma efetiva os conflitos reais entre predadores e atividades rurais.
O pedido de pausa surge justamente antes da votação prevista no Senado, onde a lei de delegação europeia — instrumento que adapta a legislação nacional às diretivas da União Europeia — deve entrar em pauta. As organizações defendem que qualquer recepção da diretiva europeia que proponha o declassamento seja precedida de avaliações científicas cuidadosas e de uma análise de oportunidade que considere alternativas de convivência entre seres humanos e fauna selvagem.
Contextualizando: a redução do nível de tutela do lobo foi aprovada em instâncias internacionais como a Convenção de Berna e pela própria União Europeia. Na prática, isso significa que o lobo poderia sair da lista de espécies “rigorosamente protegidas” para uma categorização simplesmente “protegida”, permitindo às autoridades nacionais maior margem para autorizar medidas de contenção, inclusive abates. No entanto, os estados têm discricionariedade para manter níveis mais elevados de proteção se assim decidirem.
No caso da Itália, o processo de adequação legislativa já teve um impulso anterior: um decreto do Ministério do Ambiente antecipou parte do trabalho, acelerando o calendário antes mesmo do voto parlamentar. Para muitos críticos, essa pressa traduz interesses políticos que buscam acomodar pressões de setores como allevatori (criadores) e caçadores, percebidos próximos à atual maioria parlamentar.
Regiões por todo o país começaram a preparar estudos e censos que possam justificar medidas de controle populacional do lobo. Essas iniciativas, contudo, terão de observar o parecer do Ispra (Instituto Superior para Pesquisa e Proteção Ambiental), que estimou um teto de cerca de 160 animais passíveis de abate no cenário de gestão mais permissiva. As associações exigem que números e métodos sejam transparentes e cientificamente validados.
As organizações já apresentaram cinco propostas operativas, focadas em medidas preventivas, compensações justas aos produtores, reforço de pastoreio e guarda das rebanhos, investigação científica contínua e ações de educação pública para promover convivência. A essência dessas propostas é clara: é possível mitigar conflitos sem sacrificar a integridade ecológica de espécies-chave.
Falo aqui como curadora de progresso: este debate é uma lâmpada que ilumina escolhas de futuro. Não se trata apenas de proteger um animal emblemático das montanhas e florestas, mas de semear políticas que mostrem como comunidades rurais e natureza podem prosperar juntas. Uma decisão apressada poderia apagar essa luz e gerar consequências difíceis de reverter.
Enquanto o Senado se prepara para deliberar, as vozes das associações procuram transformar inquietação em projeto — convidando parlamentares a ouvir dados, especialistas e experiências de campo, antes de autorizar medidas que mexam no equilíbrio de ecossistemas inteiros. Espresso Italia seguirá acompanhando e iluminando esse caminho, promovendo um diálogo onde a ciência, a ética e o bem comum sejam as luzes-guia.






















