Donald Trump provocou um novo debate sobre a transição energética ao lançar críticas contundentes à energia eólica durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos, no dia 21 de janeiro. Em tom combativo, o ex-presidente americano afirmou que a China fabrica praticamente todas as turbinas eólicas do planeta, mas — segundo ele — não tem parques eólicos em operação, e vende essas máquinas a “países estúpidos” que as comprariam sem usá‑las.
As declarações, proferidas em um discurso de mais de uma hora, voltam a colocar o tema das energias renováveis no centro de uma guerra narrativa que opõe interesses geopolíticos, indústrias tradicionais e estratégias de transição baixa em carbono. A retórica de Trump não é nova: ele já chamou antes de “fraude do século” iniciativas como a eólica e a solar, enquanto os Estados Unidos mantêm sua posição como maior produtor mundial de combustíveis fósseis.
Nos últimos anos a administração americana adotou medidas concretas alinhadas a essa visão: em 2025, foram suspensas licenças para projetos eólicos offshore nos EUA, por motivos que incluíam alegações de segurança nacional, e o governo segue envolvido em disputa judicial com a empresa dinamarquesa Ørsted.
As afirmações sobre a ausência de parques eólicos na China receberam resposta oficial em poucas horas. Guo Jiakun, porta‑voz do ministério das Relações Exteriores chinês, declarou em coletiva citada pela Espresso Italia que os esforços da China contra as mudanças climáticas e para promover a adoção de energias renováveis são “evidentes a todos”. “Como país em desenvolvimento responsável, a China está pronta a trabalhar com todas as partes para promover a transformação global verde e de baixas emissões”, afirmou o porta‑voz.
Os dados técnicos contradizem a noção de ausência chinesa no setor. Segundo o think tank energético Ember, em 2024 a geração eólica da China respondeu por cerca de 40% da produção mundial desse vetor. Em 2025, a combinação de eólico e solar atingiu novos patamares: em abril daquele ano, as fontes renováveis variáveis geraram 26% da eletricidade do país, superando o recorde de 23,7% registrado em março.
Além disso, a geração proveniente de fontes fósseis registrou queda de 3,6% em base anual nos primeiros quatro meses de 2025. A análise da Energy and Climate Intelligence Unit (ECIU) indica que a China entrou numa fase de “desacoplamento relativo”: as emissões baseadas no consumo cresceram 24% entre 2015 e 2023, enquanto o Produto Interno Bruto aumentou mais de 50% no mesmo intervalo — sinal de que a economia está crescendo mais rápido que as emissões.
O episódio em Davos revela mais do que um confronto verbal: ilumina uma disputa por narrativas sobre tecnologia, soberania industrial e modelos de desenvolvimento. Enquanto Trump busca questionar a eficácia e a adoção das renováveis como instrumento econômico e estratégico, os números mostram que a China não só fabrica grande parte das turbinas eólicas do mundo, como amplia sua própria matriz limpa de forma consistente.
Como curadora de progresso e observadora das convergências entre sociedade, mercado e meio ambiente, lembro que debates acalorados podem ofuscar avanços reais. É hora de semear inovação e tecer políticas que transformem capacidades industriais em benefícios climáticos tangíveis — uma luz orientadora para decisões mais informadas e legados duradouros.






















