Por Aurora Bellini — Em uma paisagem onde o gelo recua como uma cortina que revela novos riscos e oportunidades, um estudo recente traz um quadro paradoxal: os ursos polares das Svalbard mostram melhoria na condição corporal apesar do acelerado derretimento do gelo marinho. Publicada em Scientific Reports, a pesquisa analisa dados físicos de 1992 a 2019 e lança luz sobre adaptações locais que podem ilustrar caminhos — porém frágeis — de resiliência em um Ártico em aquecimento.
O fenômeno lembra a imagem viral de 2015 de um urso aparentemente em agonia, que reacendeu o debate público sobre como a mudança climática impulsionada por atividades humanas pressiona a espécie, hoje classificada como vulnerável pela IUCN. Ainda que estudos de 2020 apontem que, mesmo com emissões reduzidas, populações locais podem desaparecer até 2100, o caso das Svalbard oferece uma narrativa complexa: nem toda resposta biológica é imediata ou linear.
Na área do Mar de Barents, a temperatura aumentou até 2 °C por década desde 1980. Depois de um censo realizado em 2004, estimou-se cerca de 2.650 ursos polares nessa região, sem sinais claros de declínio populacional. Os pesquisadores liderados por Jon Aars avaliaram registros de medições corporais e o índice de composição corporal (BCI), usado para estimar reservas de gordura e estado nutricional. Surpreendentemente, mesmo com um aumento de aproximadamente 100 dias sem gelo em 27 anos, o BCI médio dos adultos cresceu após 2000.
Os autores oferecem possíveis explicações para esse ganho de condição: uma recuperação de presas terrestres anteriormente sobreexplotadas pelo homem, como renas e trichechi, pode ter ampliado fontes alimentares; por outro lado, a redução do gelo pode concentrar espécies marinhas como a foca anelada em áreas menores de plataforma de gelo, tornando a caça mais eficiente para os ursos. Em outras palavras, a paisagem em transformação teria momentaneamente iluminado rotas de alimentação mais produtivas.
Mas a luz não é eterna: os pesquisadores advertem que perdas adicionais de gelo marinho podem inverter esse cenário. Menos gelo significa distâncias maiores até áreas de caça, maior gasto energético e riscos já observados em outras populações do urso polar. Assim, o ganho atual pode ser um alento temporário, não uma segurança de longo prazo.
Para a equipe, o próximo passo é aprofundar estudos sobre como diferentes populações vão se adaptar a um Ártico cada vez mais quente. Como curadora de histórias de transformação, vejo neste trabalho uma luz guia — não de certeza, mas de responsabilidade: semear conhecimento sólido agora é cultivar políticas e ações que deem a essas populações reais chances de futuro.
Na transição entre incerteza e esperança, o que fica claro é que as decisões humanas continuarão a moldar o horizonte dos ursos polares. Precisamos agir com a mesma clareza que um farol oferece numa noite de neblina: iluminando caminhos concretos de mitigação e conservação.






















