Por Aurora Bellini — A luz que deveria iluminar um renascimento social e ambiental em Crotone esbarra novamente em sombras antigas. No dia 8 de janeiro, a petrolífera Eni comunicou a suspensão das escavações no sítio do ex‑SIN de Crotone após a descoberta de materiais contendo TENORM — resíduos radioativos de origem natural, concentrados por processos industriais. A notícia reacende um conflito cujo valor econômico ronda os quase dois bilhões de euros e, acima de tudo, volta a colocar no centro da disputa as vidas dos crotoneses.
O local, conhecido popularmente como “o mostro”, continua visível à beira da estrada estatal 106: um conjunto de áreas industriais abandonadas — herança das atividades da ex‑Montedison e da Pertusola — onde estão enterradas, estima‑se, cerca de um milhão de toneladas de resíduos. Metais pesados como zinco, cádmio, chumbo, cobre e arsênico, além de amianto e agora o TENORM, compõem um quadro de contaminação que a população vem pagando em saúde e qualidade de vida.
Os dados do Instituto Superior de Saúde (ISS), reunidos no relatório Sentieri, acendem sinais de alerta: há um excesso de mortalidade por tumores do fígado e das vias biliares, além de aumentos observados em linfomas não‑Hodgkin, câncer de mama, pulmão, rim e casos pediátricos. É um retrato duro, que exige respostas técnicas e políticas urgentes — não mais adiamentos que empurram para frente o custo humano da poluição.
Na avaliação da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre atividades ilegais relacionadas ao ciclo de resíduos e crimes ambientais, presidida por Jacopo Morrone, o acúmulo de atrasos, variantes projetuais não implementadas e a ausência de locais de destinação final definidos contribuíram para um prejuízo ambiental e social persistente. O relatório aponta ainda risco de agravamento da contaminação, aumento da exposição a ilícitos e distorções em processos de licitação.
O relator de minoria, senador Nicola Irto (PD), defendeu a necessidade de ações imediatas: uma governança eficaz, controles rigorosos e a aplicação estrita do princípio de que quem polui paga. Para Irto, as comunidades do crotonese merecem uma bonificação radical, segura e definitiva — um objetivo que parece cada vez mais distante se persistirem as indecisões sobre destino e gestão dos materiais perigosos.
Em comunicado de maio de 2024, a própria Eni havia apontado a falta de infraestruturas adequadas no país para a destinação de certos resíduos, sobretudo os que apresentam radioatividade natural concentrada. Agora, com a pausa das escavações motivada pelo achado de TENORM, abre‑se a discussão sobre onde e como esses materiais deverão ser tratados ou depositados — e quem arcará com os custos e responsabilidades técnicos e legais.
Do lado das autoridades locais — Comune e Provincia de Crotone — a posição é de reprovação. Em nota oficial, classificaram os sucessivos adiamentos como inaceitáveis, sublinhando que a população já pagou alto preço em saúde e bem‑estar. Exigem cronogramas claros, transparência nas análises e a definição de sítios de destino compatíveis com as normas de segurança.
O embate volta a iluminar uma questão maior: além da limpeza física do território, trata‑se de restaurar confiança, reparar danos acumulados ao longo de décadas e semear, com responsabilidade técnica e moral, um futuro mais limpo para as próximas gerações. Enquanto isso, a cidade espera medidas que transformem promessas em ação concreta — uma verdadeira bonificação que não deixe mais sacrifícios no caminho.




















