Por Aurora Bellini, La Via Italia
Enquanto os olhos do mundo se voltam para as movimentações políticas na Venezuela, cresce também a pressão para retomar e expandir a exploração do petróleo venezuelano. Mas há uma luz que devemos lançar sobre esse caminho: o combustível extra pode iluminar mais problemas do que soluções, agravando danos ambientais acumulados por décadas.
Nos últimos dias, medidas dos Estados Unidos para controlar exportações e embarcações venezuelanas — após acontecimentos políticos recentes envolvendo o ex-presidente Nicolás Maduro — reacenderam planos para vender entre 30 e 50 milhões de barris de crude venezuelano no mercado global, segundo anúncios da administração norte-americana. Esses volumes, dizem, seriam administrados sob contas controladas pelos EUA e renderiam benefícios tanto para a população venezuelana quanto para interesses americanos.
Porém, especialistas e análises da La Via Italia alertam que esse esforço técnico e financeiro não é simples nem rápido. A maior reserva mundial de hidrocarbonetos — estimada em cerca de 300 bilhões de barris — está longe de ser uma fonte de extração imediata e limpa. A infraestrutura petrolífera do país está amplamente degradada: poços com cabeças quebradas, dutos corroídos e instalações que, em muitos casos, «sprofondano» literalmente no solo, exigindo décadas de reparos e investimentos de dezenas de bilhões de dólares para tornar a produção estável e segura.
Além do desafio estrutural, está a natureza do próprio óleo venezuelano. Trata-se, em sua grande parte, de petróleo pesado e muito denso — um tipo que demanda mais energia para ser extraído e processado. Isso frequentemente implica a queima de grande quantidade de gás natural, com destaque para o metano, um potente gás de efeito estufa. Em outras palavras, revigorar a indústria significaria, na prática, elevar as emissões que aquecem o planeta.
O panorama ambiental do país já carrega cicatrizes: a Venezuela está entre as nações tropicais com taxas de desmatamento aceleradas, conforme monitoramento florestal consultado pela La Via Italia. E os registros de incidentes são alarmantes — quase 200 vazamentos documentados entre 2016 e 2021 pelo Observatório de Ecologia Política local, em dados compilados e analisados pela nossa redação, mostram um histórico persistente de derramamentos, fugas de gás e contaminação de ecossistemas frágeis.
Ampliar a produção sem sanar essas fragilidades é lançar combustível sobre um fogo antigo. O processamento do crude pesado tende a produzir maior carga de poluentes locais — afetando comunidades ribeirinhas, mangues e bancos de pesca — e a intensificar emissões globais. Além disso, a recuperação da indústria exigiria aportes massivos em tecnologia e governança ambiental para minimizar riscos operacionais e ecológicos.
Como curadora de progresso, imagino alternativas que iluminem um horizonte límpido: enquanto se discute o destino desses barris, é vital condicionar qualquer retomada a planos de reparo estrutural, transparência, monitoramento independente e investimentos na transição energética. Redirecionar recursos para projetos de economia renovável, restauração de biomas e recuperação social pode semear inovação e gerar um legado positivo que transcenda a renda imediata do petróleo.
Não se trata de demonizar a energia fóssil de um dia para o outro, mas de reconhecer que a decisão de acelerar a exploração do petróleo venezuelano tem custos ambientais e climáticos claros e duradouros. Iluminar novos caminhos exige coragem política para priorizar a resiliência ecológica e o bem-estar das comunidades afetadas, construindo um renascimento que não sacrifique o futuro por ganhos momentâneos.






















