O Relógio do Apocalipse avançou novamente, acendendo um alerta claro: a humanidade caminha para uma confluência perigosa de riscos — armas nucleares, desinformação e mudança climática — que empurram o planeta para perto de um ponto de ruptura. Instituído pelo Bulletin of the Atomic Scientists em 1945, na esteira da criação da bomba atômica por figuras como Einstein e Oppenheimer, o relógio é uma metáfora potente do perigo das tecnologias humanas quando desgovernadas. Aproximar-se da meia-noite significa aproximar-se da catástrofe.
Na última atualização anual, o mostrador foi ajustado para apenas 85 segundos antes da meia-noite — um número simbólico que reflete um cenário global em que tensões geopolíticas e crises ambientais se reforçam mutuamente. Enquanto poderosos atores estatais adotam posturas cada vez mais beligerantes, o mundo enfrenta também o crescimento contínuo das concentrações de CO2, já em torno de 150% dos níveis pré-industriais.
O ano de 2025 figurou entre os mais quentes já registrados: foi o terceiro mais quente globalmente e, pela primeira vez, o primeiro triênio a ultrapassar de forma sustentada a marca de 1,5°C estabelecida no Acordo de Paris. Ondas de calor extremas varreram a Europa, provocando incêndios devastadores e impondo stress térmico às populações. Um estudo conjunto do Imperial College London e da London School of Hygiene & Tropical Medicine estimou que, das cerca de 24.400 mortes associadas ao calor no último verão, 68% são atribuíveis ao aquecimento provocado pela atividade humana, que em alguns cenários elevou temperaturas locais em até 3,6°C.
As consequências físicas desse aquecimento são também hidrológicas: a cada aumento de 1°C, a atmosfera pode reter cerca de 7% a mais de vapor d’água, intensificando eventos de chuva intensa e enchentes rápidas. No outono passado, monções sobrepostas na Ásia geraram inundações súbitas que destruíram milhares de moradias e ceifaram vidas. Esses episódios ressaltam não apenas os efeitos imediatos do clima extremo, mas também como práticas humanas — em especial o desmatamento — agravam a vulnerabilidade. Entre 2016 e 2025, a Indonésia perdeu cerca de 1,4 milhão de hectares de florestas em regiões como Aceh, Sumatra do Norte e Sumatra Ocidental, reduzindo a capacidade natural do solo de absorver água e aumentando o risco de inundações.
Mesmo diante desses sinais, as negociações climáticas globais enfrentaram retrocessos. No COP30, realizado em Belém, avanços decisivos rumo ao abandono dos combustíveis fósseis foram ofuscados por interesses divergentes. Ainda assim, houve pressão internacional crescente: mais de 90 países demonstraram apoio a uma rota de transição para energia limpa, sinalizando que a maré política pode, enfim, virar.
Aqui se insere um ponto crucial: o que o mundo precisa, agora, é de liderança que torne permanente o impulso pela transição energética. O fim da hostilidade política contra a energia renovável — personificada na chamada “guerra” promovida por administrações anteriores que favoreceram combustíveis fósseis e obstaculizaram políticas limpas — pode acelerar a adoção de tecnologias que reduzam emissões, criem empregos verdes e fortaleçam a resiliência social. Uma virada norte-americana em direção às renováveis teria efeito cascata: investimentos, inovações e cadeias de suprimento mais robustas que ajudam a afastar o ponteiro do relógio.
O desafio não é apenas técnico, mas ético e cultural. É necessário combater a desinformação que mina confiança pública, desenhar políticas que protejam as comunidades mais vulneráveis e restaurar ecossistemas para amortecer choques climáticos futuros. Como curadora de progresso e testemunha do que a sociedade pode realizar quando ilumina caminhos coletivos, vejo na recuperação da agenda das energias renováveis um fio de esperança concreto — não romantismo, mas uma estratégia plausível e mensurável para reduzir riscos planetários.
O Relógio do Apocalipse nos oferece, em seu silêncio numérico, uma chamada à ação: ao semear inovação, proteger florestas e restabelecer um compromisso global com energias limpas, podemos, juntos, afastar a sombra da meia-noite. É momento de traduzir essa urgência em políticas, investimentos e solidariedade intergeracional — para que o horizonte não seja apenas mais claro, mas mais justo.






















