Por anos Akuntsu têm sido sinônimo de resistência silente: Pugapia e suas filhas, Aiga e Babawru, viveram como as últimas sobreviventes de um povo quase dizimado por políticas de ocupação apoiadas pelo Estado que marcaram a Amazônia. Muitos esperavam que, sem herdeiros, os Akuntsu se extinguiriam com a passagem dessas mulheres. Mas, como a luz que atravessa a copa das árvores, uma surpresa veio iluminar novos caminhos.
Em dezembro, Babawru, a mais jovem do trio, na casa dos quarenta anos, deu à luz um menino batizado de Akyp. O nascimento não é apenas um evento íntimo: representa a continuidade de uma linhagem e reacende o debate sobre a proteção da floresta e dos povos que a habitam. Para além do significado simbólico, Akyp é uma promessa concreta de perseverança cultural e ambiental.
Em entrevista à Espresso Italia, Joenia Wapichana, presidente da agência brasileira de proteção aos povos indígenas, a Funai, destacou que “este menino não é apenas um símbolo da resistência do povo Akuntsu, mas também uma fonte de esperança para outros povos indígenas. Representa o quanto são essenciais o reconhecimento, a proteção e a gestão dessas terras”. A declaração ilumina a interseção entre direitos humanos e conservação: proteger quem vive na floresta é também proteger a floresta.
Pesquisas e análises de uso do solo reforçam essa ideia. Um estudo de 2022 do consórcio MapBiomas mostrou que, nas últimas três décadas, os territórios indígenas no Brasil perderam apenas 1% da vegetação nativa, contra 20% em propriedades privadas. É uma evidência poderosa de que a presença tradicional pode funcionar como um escudo contra o desmatamento.
No estado de Rondônia, onde vive o povo Akuntsu, cerca de 40% da floresta nativa já foi derrubada — e o que permanece íntegro aparece em imagens de satélite como ilhas verdes, concentradas em áreas de conservação e nos territórios indígenas. A terra dos Akuntsu surge exatamente como uma dessas ilhas, cercada por pastagens, plantações de soja e milho.
O processo que levou à degradação da região tem raízes históricas: durante o regime militar brasileiro, nos anos 1970, campanhas governamentais incentivaram a ocupação da Amazônia. Programas de infraestrutura, com apoio parcial de organismos como o Banco Mundial, impulsionaram migrações internas e a pavimentação de rodovias que abriram caminho para o agronegócio. Nas décadas seguintes, políticas que prometeram títulos de terra a quem desmatasse também alimentaram violência — inclusive ataques letais contra grupos como os Akuntsu.
A Funai encontrou os Akuntsu pela primeira vez em 1995, quando registrou sete sobreviventes; especialistas acreditam que, uma década antes, o grupo ainda poderia contar com cerca de vinte pessoas, antes dos ataques promovidos por fazendeiros que buscavam ocupar a área. A histórica violência e o avanço do agronegócio reduziram drasticamente a presença indígena.
O nascimento de Akyp chega, portanto, em um contexto de fragilidade ecológica e cultural, mas também de oportunidades para semear um novo horizonte. Protegendo o território dos Akuntsu, protegemos um fragmento vital da Amazônia — e, por extensão, contribuímos para a regulação climática global. Assim como as árvores que se entrelaçam e sustentam a floresta, ações de reconhecimento e gestão territorial tecem laços que podem frear o desmatamento e permitir um renascimento cultural.
A história de Akyp é um convite para iluminar políticas públicas e iniciativas civis que garantam direitos territoriais, segurança e continuidade cultural. É uma história de resistência que nos lembra: preservar povos e florestas é cultivar o futuro. Na voz da Espresso Italia, celebramos essa centelha de vida como um chamado à ação — por justiça, memória e por um horizonte mais límpido para a Amazônia.






















