Como curadora de progresso da Espresso Italia, observo que o clima frequentemente nos mostra que é preciso iluminar novos caminhos para entender transformações profundas. Um ciclo natural conhecido como El Niño, que influencia o tempo em escala global, está não só contribuindo para o aquecimento global como também sendo remodelado por ele — e isso tem reflexos diretos nas temperaturas recordes que vivemos.
Pesquisadores apontam que uma virada incomum entre fases de aquecimento e resfriamento do Pacífico — o ciclo que envolve El Niño e sua contraparte, La Niña — ajuda a explicar por que a temperatura média do planeta saltou para um novo patamar entre 2023 e 2025. Ao mesmo tempo, agências internacionais atualizaram a forma de catalogar esses eventos por causa das águas oceânicas cada vez mais quentes.
Nos primeiros meses de 2026, a agência NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) revisou o método de cálculo usado para definir a passagem entre fases do ciclo Pacífico. Esse ajuste surge porque o aquecimento dos oceanos altera os sinais históricos usados na classificação: é provável que a nova abordagem leve a identificar mais episódios como La Niña e menos como El Niño em águas tropicais agora mais quentes.
Desde o início de 2023 houve um salto claro acima da tendência de longo prazo ligada ao mudança climática antropogênica — um fenômeno que persiste até 2025. Várias hipóteses científicas foram levantadas: um aumento acelerado nos gases de efeito estufa, a redução de partículas poluentes provenientes de navios, a erupção de um vulcão submarino e até flutuações de atividade solar. Mas um estudo recente publicado em Nature Geoscience ilumina outra peça fundamental do quebra-cabeça.
Pesquisadores japoneses analisaram o aumento em 2022 do chamado desequilíbrio energético da Terra — a diferença entre a energia que entra e a que sai do sistema planetário. Eles calculam que cerca de três quartos desse aumento sejam explicados pela combinação do aquecimento humano de longo prazo e pela mudança de uma sequência de três anos de La Niña para uma fase quente de El Niño. Em termos simples: mais calor ficou retido no sistema, empurrando para cima as médias globais.
O mecanismo é físico e direto. Durante fases de La Niña, as águas quentes do Pacífico ficam mais profundas, a superfície esfria e menos energia é devolvida à atmosfera. Já episódios de El Niño tendem a aquecer a superfície oceânica e, consequentemente, a elevar as temperaturas globais. Entre 2020 e 2023 a Terra viveu uma rara “tripla” La Niña sem o intervalo quente que normalmente aparece — um quadro que agora mudou.
As implicações são múltiplas. Estudos anteriores mostram que fases de La Niña podem agravar secas e aumentar a atividade de furacões nos Estados Unidos, enquanto El Niño costuma elevar as médias térmicas globais. Agora, com a recalibração da NOAA e a nova compreensão do desequilíbrio energético, cientistas e gestores públicos terão ferramentas melhores — e mais desafiadoras — para planejar respostas.
É essencial que, como sociedade, encontremos maneiras práticas de semear ações de adaptação e mitigação. Assim como um farol que revela um horizonte límpido, essa nova leitura dos ciclos climáticos nos permite tecer políticas e investimentos que protejam populações vulneráveis e impulsionem inovação. A verdade é clara: o clima está nos ensinando a traduzir sinais antigos em estratégias contemporâneas — e a Espresso Italia seguirá iluminando esses caminhos.






















