O renovado interesse de Donald Trump pela Groenlândia voltou a iluminar um tema estratégico: os abundantes e ainda pouco explorados minerais críticos da ilha, recursos que podem ser decisivos na transição global para uma matriz energética mais limpa. Para quem olha o horizonte da geopolítica e da tecnologia, esses depósitos representam não apenas riqueza mineral, mas também a possibilidade de semear uma nova autonomia industrial.
Agências internacionais, como a Agência Internacional de Energia (AIE), vêm destacando que os minerais críticos são “essenciais” para a mudança rumo a um futuro energético verde. Eles alimentam tecnologias-chave: de turbinas eólicas a veículos elétricos. Em especial, a Groenlândia surge no mapa como um depósito relevante. Um estudo recente mostrou que 25 dos 34 materiais classificados como críticos pela União Europeia estão presentes na ilha. Estima-se que a Groenlândia detenha entre 36 e 42 milhões de toneladas de óxidos de terras raras, tornando-se a segunda maior reserva conhecida depois da China.
Do ponto de vista da tecnologia de armazenamento e mobilidade elétrica, elementos como lítio, níquel, cobalto, manganês e grafite são cruciais para o desempenho das baterias. Já as terras raras são fundamentais para fabricar ímãs potentes, presentes em turbinas eólicas e motores de veículos elétricos. As redes elétricas, por sua vez, demandam grandes volumes de cobre e alumínio — insumos que entram diretamente na equação da segurança energética.
O mercado global das terras raras cresce junto ao boom das tecnologias limpas: estimativas apontam para um valor de mercado que ultrapassa 6,5 bilhões de euros neste ano. Esse movimento faz da Groenlândia um ponto de atenção para os Estados Unidos, que, segundo o US Geological Survey, dependem 100% de importações para doze minerais considerados críticos à economia e à segurança nacional.
Hoje a China processa mais de 90% das terras raras do mundo, uma centralidade que motiva estratégias para diversificar fornecedores. Institutos como o Centre for Strategic and International Studies destacam que os Estados Unidos não podem preservar sua liderança em segurança nacional, competitividade econômica e resiliência energética mantendo dependência de parceiros geopolíticos que são também concorrentes estratégicos.
O governo de Trump vem agindo nessa direção. Desde o primeiro mandato, em 2025 ele assinou um decreto executivo para adotar “medidas imediatas” capazes de ampliar a produção minerária doméstica ao máximo. Recursos do Defense Production Act foram mobilizados com o objetivo de oferecer financiamentos à indústria extrativa dos EUA e reduzir entraves burocráticos que atrasam projetos. Agências federais passaram a priorizar usos mineiros de terras públicas diante de outras disputas de ocupação.
Além disso, houve ordens executivas voltadas à intensificação da extração em águas profundas e esforços diplomáticos para estreitar relações com países produtores de minerais estratégicos. Essas iniciativas ilustram que a busca por autonomia mineral não é apenas técnica, mas também diplomática e logística.
Mesmo com as vantagens geopolíticas, a rota proposta não é isenta de desafios. Extrair e transformar minérios em escala exige investimentos em infraestrutura, cadeias de processamento, pesquisa para reduzir impactos ambientais e diálogo profundo com populações locais — em especial povos indígenas que habitam a Groenlândia. Sem esse tecido social e regulatório, qualquer projeto corre o risco de gerar fratura ao invés de legado.
Em última instância, a corrida por minerais críticos na Groenlândia revela tanto uma oportunidade concreta para reduzir a dependência da China quanto uma encruzilhada ética e prática: é possível iluminar novos caminhos para a indústria sem sacrificar comunidades, ecossistemas e o futuro climático. Semear essa transição com cuidado e inteligência é o verdadeiro desafio — e a chance de cultivar um renascimento industrial alinhado com a sustentabilidade e a justiça.






















