Uma chave quase invisível para enfrentar a crise climática começa a revelar seu brilho gracias ao trabalho da bióloga evolucionista Toby Kiers, recentemente laureada com o Tyler Prize 2026 — um reconhecimento frequentemente comparado a um “Nobel do clima”. O prêmio, que inclui 250.000 dólares (aproximadamente 215.000 euros), destaca pesquisas que trazem benefícios concretos à humanidade nas áreas ambientais, de saúde e energia.
Kiers, professora na Vrije Universiteit de Amsterdã, iluminou uma rede subterrânea que até agora permaneceu em grande parte fora do radar das políticas climáticas: as vastas malhas formadas por fungos micorrízicos. Esses organismos do solo funcionam como um verdadeiro sistema circulatório do planeta, estabelecendo parcerias simbióticas com as raízes das plantas e formando uma teia subterrânea capaz de movimentar nutrientes e carbono em escala global.
Segundo Kiers, essas redes são responsáveis por deslocar quantidades enormes de matéria e energia. “Cada ano, as redes micorrízicas absorvem cerca de 13 bilhões de toneladas de CO2 nos sistemas do solo — o equivalente a um terço das emissões dos combustíveis fósseis“, explica a pesquisadora. Esse número coloca os fungos no centro de qualquer estratégia séria de mitigação climática.
Além de atuar como reservatórios de carbono, os fungos micorrízicos fornecem nutrientes essenciais às plantas, aumentam a tolerância a metais pesados, melhoram a absorção de água e favorecem flores mais vistosas e ricas em açúcares — um presente direto às populações de polinizadores. “Por dezenas de milhões de anos, essas redes desempenharam o papel de sistema radicular das plantas, até que as plantas desenvolveram raízes próprias”, comenta Kiers, numa imagem que nos convida a enxergar o solo como um organismo coletivo.
Porém, apesar dessa importância vital, o planeta tem negligenciado a cartografia, o monitoramento e a proteção desses sistemas. A pesquisadora alerta que desmatamento, erosão e práticas agrícolas intensivas têm degradado as redes micorrízicas. As listas de conservação, como as da IUCN, incorporam apenas uma fração ínfima das espécies fúngicas conhecidas — um sinal de que a conservação do subterrâneo foi pouco considerada nas agendas globais.
“Isso é um problema”, adverte Kiers. A destruição dessas redes acelera o aquecimento global, amplia a perda de biodiversidade e altera ciclos de nutrientes. Hoje, menos de 0,02% da superfície terrestre foi mapeada em relação aos fungos micorrízicos — um déficit de dados que impede decisores de integrar essas informações em estratégias climáticas, iniciativas de conservação e projetos de restauração.
Para preencher essa lacuna, Kiers e sua equipe lançaram o Underground Atlas (Atlas Subterrâneo), uma ferramenta que mapeia a distribuição global dos fungos micorrízicos e orienta esforços de conservação para proteger esses reservatórios vitais de carbono. Em ensaios de laboratório, o grupo mostrou que os fungos movem ativamente o fósforo de regiões de abundância para áreas de escassez, recebendo em troca mais carbono da planta — um mecanismo que reforça o papel dos micélios no ciclo biogeoquímico.
O trabalho de Kiers nos convida a olhar para baixo com a mesma ambição com que olhamos para as estrelas. “Meu trabalho foi, em certo sentido, tornar-me uma astronauta do subsolo”, diz a cientista — uma metáfora que revela como investigar o invisível pode iluminar novos caminhos para políticas e práticas que protejam tanto o clima quanto a vida que dele depende.
Como curadora de progresso na La Via Italia, acredito que é hora de semear inovação e tecer políticas que reconheçam e protejam esses ecossistemas subterrâneos. Proteger os fungos micorrízicos é plantar esperança num horizonte mais límpido, onde ciência e conservação caminham juntas para um renascimento ambiental tangível.






















