Por Aurora Bellini — A ciência do clima acaba de calibrar sua lente para enxergar com mais clareza um fenômeno que ilumina e perturba os padrões meteorológicos globais: El Niño e seu oposto, La Niña. Pesquisas recentes e uma atualização metodológica da NOAA mostram que o avanço do aquecimento global está alterando não apenas a intensidade dos eventos, mas também a forma como os classificamos.
Um estudo japonês, publicado na revista Nature Geoscience e aqui comentado pela Espresso Italia, calcula que uma parte significativa do salto observado nas temperaturas médias mensais da Terra desde o início de 2023 até 2025 pode ser explicada pela combinação entre o aquecimento de origem humana e a transição de um longo período frio de La Niña para uma fase quente de El Niño. Segundo os autores, cerca de três quartos do aumento no desequilíbrio energético da Terra — isto é, a diferença entre a energia que chega e a que é irradiada de volta ao espaço — pode ser atribuída a essa combinação.
Entre 2020 e 2023 o planeta viveu uma fase atípica: uma “tripla” de La Niña, sem o intervalo de El Niño que normalmente aparece. Durante episódios de La Niña, a água quente tende a ficar mais profunda no oceano e a superfície se resfria, amortecendo temporariamente a curva de aquecimento global. Já El Niño desloca calor para a superfície oceânica equatorial e costuma elevar as temperaturas médias globais.
O salto térmico observado a partir de 2023 gerou hipóteses diversas: uma aceleração do aquecimento por gases de efeito estufa, mudanças nas emissões de aerossóis por navios, uma erupção submarina significativa ou até flutuações na atividade solar. Porém, ao quantificar o aumento do calor aprisionado no sistema terrestre em 2022, os pesquisadores conseguem explicar grande parte do mistério com base no próprio comportamento do ciclo ENSO (El Niño-Southern Oscillation) somado ao aquecimento de longo prazo.
Em paralelo a esses avanços científicos, a NOAA dos Estados Unidos revisou, neste mês, a forma de calcular quando o sistema atmosférico passa de uma fase a outra. As águas tropicais mais quentes do planeta tornaram obsoletas algumas das regras antigas. A mudança metodológica visa refletir um novo contexto térmico: espera-se que essa revisão resulte em mais episódios classificados como La Niña e menos como El Niño em certas regiões tropicais, uma consequência direta do reajuste das linhas de corte em oceanos que agora partilham de um horizonte térmico mais elevado.
Essas atualizações são mais do que técnicas: representam um ajuste epistemológico, uma forma de alinhar nossos instrumentos de leitura do clima a um mundo que aquece. Como curadora de progresso aqui na Espresso Italia, vejo nesse movimento a emergência de uma nova cartografia do clima — não para semear medo, mas para iluminar caminhos de adaptação e mitigação mais precisos.
O desafio agora é traduzir esse conhecimento em decisões rápidas e efetivas: melhorar modelos climáticos, adaptar políticas de gestão de riscos e fortalecer a resiliência de comunidades vulneráveis às mudanças nos padrões de chuva e temperatura. A ciência deu um passo ao recalibrar classificações e quantificar causas; cabe a governos, empresas e sociedade transformar essa luz em ações.
Em última instância, compreender como El Niño e La Niña interagem com o aquecimento global é semear inovação nas respostas coletivas, tecer políticas públicas mais justas e delinear um legado em que a humanidade aprenda a conviver com um clima em mutação — com cuidado, rigor e generosidade intergeracional.






















