Por Marco Severini — A poucos dias do quarto aniversário da invasão russa, o presidente ucraniano Zelensky traça um balanço estratégico e humano do conflito em entrevista à AFP. A mensagem central é de firmeza diplomática: “Certamente não estamos perdendo a guerra”, disse, mas reconheceu que o desfecho permanece incerto e que a vitória impõe um custo extremamente elevado em vidas e infraestrutura.
Em termos militares, Zelensky descreve um movimento pensado no tabuleiro: sem revelar detalhes operacionais por razões de segurança, elogia as forças armadas pela libertação de cerca de 300 quilômetros quadrados ao longo da frente sul — um avanço táctico que visa demonstrar a continuidade e a resiliência da resistência ucraniana diante de um impasse que muitos analistas definem como erosão gradual em benefício de Moscou.
O nó político mais sensível do discurso refere-se ao futuro do Donbass. Segundo o presidente, tanto Washington quanto Moscou estariam, em distintas modalidades, pressionando por concessões territoriais como condição para o fim das hostilidades. “Estados Unidos e Rússia dizem: se quiserem que a guerra acabe amanhã, saiam do Donbass”, relata. A afirmação expõe a dureza da geopolítica: por trás do pedido russo, há a pretensão evidente de consolidar ganhos; já a menção aos americanos revela a complexa mediação que Washington exerce, entre apoio militar e incentivos à negociação.
Hoje, a Rússia controla quase toda a região de Lugansk, enquanto a Ucrânia mantém cerca de um quinto do território de Donetsk. Esse mapa parcial demonstra como a tectônica de poder na zona leste se redesenha lentamente, criando fronteiras de facto que coexistem com o direito internacional e alimentam dilemas estratégicos — um verdadeiro problema de arquitetura geopolítica.
No campo da cooperação externa, Zelensky confirma que o fluxo de inteligência dos parceiros — sobretudo Estados Unidos, França e outros países europeus — permanece elevado. Contudo, reconhece limites práticos: Kiev não recebeu “tudo o que as forças armadas teriam desejado”. A informação continua sendo um ponto de apoio essencial, ainda que incompleto.
Um episódio tecnológico merece atenção: o uso e as restrições sobre o sistema Starlink. Após a decisão de Elon Musk de bloquear o acesso russo à rede, surgiram também dificuldades técnicas para o exército ucraniano. “Há desafios — admitiu o presidente —, mas os problemas do lado russo são muito mais graves.” A dependência de redes privadas de satélite coloca a guerra numa nova dimensão, onde a conectividade é peça-chave do comando e controle, mas também vulnerabilidade estratégica.
Por fim, sobre a democracia em tempos de conflito, Zelensky denuncia manobras do Kremlin para forçar a realização de eleições, numa tentativa de desestabilizar o país e removê-lo do poder. “Ninguém na Ucrânia quer votar durante uma guerra”, afirma, destacando o risco de fragmentação social e o efeito destrutivo de urnas em território em chamas. Ele mantém em aberto a possibilidade de recandidatura caso as eleições sejam viáveis no futuro.
Em suma, o retrato que emerge é o de um país em defesa de sua soberania, operando numa arena onde interesses externos redesenham, em silêncio e por vezes explicitamente, os limites do que é negociável. O presidente atua como jogador experiente num xadrez de grande escala: protege peças essenciais, abre linhas de avanço e, sobretudo, mede o custo de cada campanha. A vitória, advertiu, existe como objetivo estratégico — mas os seus alicerces serão pagos em sacrifícios que a história cobrará em alto valor.





















