Por Marco Severini — Em um apelo direto e calculado no tabuleiro da diplomacia, Volodymyr Zelensky convidou o ex-presidente norte-americano Donald Trump a se posicionar publicamente ao lado da Ucrânia, que hoje entra no seu quinto ano de confronto com a Rússia. A declaração foi feita em entrevista à CNN, concedida no palácio presidencial de Kiev, na véspera do quarto aniversário da invasão iniciada em 24 de fevereiro de 2022.
Na conversa com a emissora norte-americana, Zelensky reiterou que os Estados Unidos devem escolher o lado de um Estado democrático que enfrenta “uma única pessoa”, numa referência explícita ao presidente russo Vladimir Putin. Questionado se Washington está a exercer pressão suficiente sobre Putin para encerrar o conflito, o presidente ucraniano foi direto: “Não”.
Mais enfático, Zelensky advertiu sobre o preço de concessões unilaterais: “Se lhe dermos tudo o que ele quer, perderemos tudo, cada um de nós. Teremos de fugir ou nos tornar russos”. A imagem é dura e intencional; no xadrez das grandes decisões, trata-se de evitar um movimento que permita ao adversário conquistar o centro do tabuleiro sem resistência.
Em mensagem pública, o presidente ucraniano recordou que hoje se completam quatro anos desde o dia em que Putin acreditava que tomaria Kiev em três dias. “Isto diz muito sobre a nossa resistência, sobre como a Ucrânia lutou durante todo este tempo. Por trás destas palavras há milhões dos nossos cidadãos, grande coragem, trabalho árduo, resistência e o longo caminho que a Ucrânia percorre desde 24 de fevereiro”, escreveu Zelensky em sua conta na X.
O tom de Zelensky combina memória e estratégia. Ao reafirmar que a independência ucraniana foi defendida e que a estatura do Estado se manteve intacta, o presidente busca consolidar apoio externo e interno: “Putin não atingiu seus objetivos. Ele não quebrou os ucranianos, não venceu esta guerra. Preservamos a Ucrânia e faremos tudo para alcançar paz e justiça. Glória à Ucrânia!”, concluiu.
Do ponto de vista geoestratégico, o apelo a Trump é simultaneamente pragmático e simbólico. Pragmaticamente, é um pedido por clareza na política norte-americana: a posição de Washington — seja qual for a administração ou a figura pública que exerça influência sobre ela — define movimentos e contramovimentos na arquitetura de segurança europeia. Simbolicamente, chama a atenção para a necessidade de um alinhamento que impeça o redesenho de fronteiras invisíveis e a erosão dos alicerces da diplomacia baseada em regras.
Enquanto o conflito entra em novo ciclo temporal, a mensagem de Kiev é clara: a resistência ucraniana não é apenas militar, é também uma estratégia de legitimidade internacional. Convidar um ator político com peso eleitoral nos Estados Unidos é procurar ampliar o leque de aliados e condicionar futuros passos do Kremlin no tabuleiro global. No curto prazo, a incógnita é como as forças de influência internas americanas reagirão a esse apelo direto.
Como analista, vejo o momento como uma jogada bem calculada — um movimento que busca transformar a narrativa da guerra em capital político e diplomático, forçando interlocutores a revelar suas intenções. Em termos de tectônica de poder, trata-se de consolidar apoios antes que qualquer nova realocação de forças reestruture o equilíbrio na região.
Marco Severini — Espresso Italia





















