Volodymyr Zelensky afirmou que os Estados Unidos e a Rússia estariam a discutir um novo documento que envolve a relação entre a OTAN e Moscou, em paralelo ao ciclo de negociações mediadas pelos EUA em Genebra. Em mensagens públicas, o presidente ucraniano definiu o encontro na Suíça como um movimento relevante, sobretudo no front militar, mas enfatizou a necessidade de que Kiev seja consultada sobre qualquer decisão que trate do seu futuro e do seu papel no bloco atlântico.
Na leitura de Zelensky, o processo negociador tem-se desdobrado em dois trilhos — um militar e outro político — e, sobre o primeiro, já teriam sido feitos progressos concretos. Segundo o presidente ucraniano, os militares discutiram em formato trilateral os contornos de uma possível missão de monitoramento para um eventual cessar-fogo, detalhando capacidades, aspectos técnicos e responsabilidades, com os EUA assumindo papel de protagonismo no monitoramento.
“Sei que os americanos, e talvez alguns europeus, estão discutindo um novo documento entre a OTAN e a Rússia“, disse Zelensky. “Quando tiverem um documento desse tipo, poderão discutir tudo. Mas, para mim, é importante que falem conosco sobre nosso potencial papel na OTAN. Não só com os russos, conosco. Porque nos diz respeito”. O presidente acrescentou que as negociações poderiam prosseguir sem a presença ucraniana, mas advertiu que Kiev “reagirá às surpresas” caso elas ocorram.
Do ponto de vista técnico-militar, Zelensky assinalou que se está “mais próximo” de um resultado: uma minuta que contenha todos os pormenores de como será o monitoramento imediatamente após o cessar-fogo. Ao mesmo tempo, alertou para uma discussão mais difícil quanto ao papel das potências europeias. “Para nós, a participação europeia é significativa. É ótimo ter os americanos como parceiros, mas precisamos também de representantes europeus”, afirmou.
No registro político, por outro lado, as negociações permanecem mais complicadas, refletindo as divergências estratégicas e as fragilidades dos alicerces diplomáticos que sustentam qualquer acordo duradouro. Aqui se percebe a clássica dinâmica de tabuleiro: movimentos militares bem ensaiados podem criar uma configuração favorável à abertura política, mas sem garantias institucionais sólidas o risco de retrocessos permanece.
Em tom mais contundente, Zelensky rejeitou a instrumentalização histórica promovida por Putin, descrevendo-a como uma manobra para ganhar tempo e minar a possibilidade de diálogo genuíno. “Não preciso de mentiras históricas para acabar com esta guerra e avançar para a diplomacia”, disse o presidente, sublinhando que conhece a região russa e os seus povos em detalhes que, segundo ele, contrariam a narrativa do Kremlin.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: discutir um documento entre EUA e Rússia sobre a OTAN equivale a redesenhar fronteiras invisíveis da influência, com implicações para o equilíbrio europeu. A tectônica de poder que emergir dessas conversas — e a forma como Kiev for consultada ou excluída — definirá os próximos passos da estabilidade regional.
Como analista da cena internacional, observo que a inclusão operativa de atores europeus na missão de monitoramento seria não só simbólica, mas essencial para conferir legitimidade multilateral ao processo. Sem essa arquitetura europeia, o desenho resultante tenderá a permanecer frágil, suscetível a novas rupturas e a reinterpretacões estratégicas dos atores envolvidos.






















