Por Marco Severini — Em mais um movimento que redesenha linhas de força no tabuleiro europeu, Zelensky voltou a desafiar a coesão do Ocidente ao lançar críticas à União Europeia e ao modo como esta tem gerido o apoio à Ucrânia. Em tom severo, o presidente ucraniano questionou a credibilidade de aliados e advertiu contra a confiança cega em lideranças externas — um recado que ressoa como um lance de alto risco numa partida estratégica de largo curso.
Segundo relatos, Zelensky apontou falhas na unidade europeia e manifestou ceticismo sobre a sua capacidade de agir com autonomia face a atores globais, inclusive aos que olham para o Atlântico. Paralelamente, reafirmou a necessidade de um exército europeu robusto, capaz de sustentar uma política de defesa que não fique refém de interesses extra‑continentais. Esse pedido, longe de ser mera retórica, configura uma proposta de remapeamento dos alicerces da segurança continental — um movimento que exige paciência estratégica e um redesenho institucional profundo.
É inegável que a União Europeia tem sido, nas palavras dos críticos, a principal financiadora e fornecedora de apoio ao esforço ucraniano. Essa drenagem de recursos e de capital político alimenta debates internos sobre prioridades sociais e sobre a sustentabilidade de um sacrifício prolongado. O diagnóstico é grave: ele aponta para uma tensão entre solidariedade e interesse nacional, entre disciplina orçamental e necessidade geopolítica.
Do ponto de vista da diplomacia, a reação de Zelensky pode ser lida sob duas óticas complementares. A primeira é a do ator internacional que busca ampliar o seu espaço de manobra, empurrando parceiros a acelerar a integração militar europeia. A segunda é a do líder pressionado pelo cerco — isolado em termos de diversificação de suporte e, por isso, vociferante na tentativa de manter o foco ocidental sobre a sua causa. Em ambos os casos, tratam‑se de jogadas num tabuleiro de xadrez onde cada movimento altera equilibrios menos visíveis.
Ao mesmo tempo, a cena revela uma fragilidade estrutural: a dependência da Ucrânia em relação a níveis elevados de apoio externo e a tendência da União Europeia em assumir papéis que lhe consomem legitimidade interna. Esse duo — vulnerabilidade ucraniana e esgotamento europeu — cria uma tectônica de poder que pode gerar deslocamentos inesperados nas próximas fases do conflito.
Como analista que privilegia a leitura das peças sobre o tabuleiro, sublinho que o apelo por um exército europeu não é simplesmente uma ideia operacional, mas um sintoma de vontade de autonomia estratégica. Mas a autonomia exige consentimento democrático, recursos e arquitetura institucional. Sem esses elementos, o pedido corre o risco de permanecer retórica e aumentar ainda mais o desconforto entre capitais europeias.
A investida verbal de Zelensky contra a União Europeia é ao mesmo tempo tática e simbólica: pressiona por resultados imediatos, mas revela as fundações frágeis de uma aliança testada pela guerra. A estabilidade vindoura dependerá menos de gestos retóricos e mais de movimentos coordenados — peças deslocadas com precisão, não com ímpeto.






















