WEF Davos 2026 abriu com expectativa internacional, mas um gesto simbólico alterou o tabuleiro diplomático: o presidente Zelensky não compareceu ao Fórum, onde era aguardado para um discurso e, sobretudo, para um encontro decisivo destinado a selar um acordo sobre a reconstrução da Ucrânia.
A justificativa oficial para a ausência, anunciada anteriormente, apontava para os recentes bombardeios no território ucraniano. Contudo, fontes diplomáticas e a própria mensagem pública do mandatário delinearam uma causa política mais nítida: um boicote dos EUA ao encontro programado para formalizar garantias de segurança e compromissos financeiros.
No post publicado na plataforma X, Zelensky reafirmou que a delegação ucraniana “preparou tudo o necessário” para a assinatura, em particular com a América, de documentos sobre garantias de segurança e o plano de reconstrução. Ainda segundo o presidente, tal pacto teria caráter histórico, considerando que a Europa enfrenta a maior conflagração desde a Segunda Guerra Mundial. Mas, escreveu ele, a presença em Davos depende de uma condição prática: se os encontros forem capazes de “proteger vidas e garantir segurança” de forma tangível.
Segundo interlocutores presentes no Fórum, os EUA não autorizaram o encontro nos termos esperados pela delegação ucraniana. A razão é estratégica: os americanos operam hoje num estágio sensível de negociações que, potencialmente, podem conduzir a uma trégua ou acordo mais amplo — e preferem gerir cuidadosamente compromissos públicos que possam prejudicar a flexibilidade nas mesas de negociação.
Em Davos, o debate não se restringe à guerra na Ucrânia. A presidente da Comissão Europeia, von der Leyen, confrontou publicamente as políticas tarifárias anunciadas por Trump, defendendo que a “independência europeia” é um imperativo estrutural. O Fórum reúne cerca de 3.000 participantes de mais de 130 países, 400 líderes políticos e 65 chefes de Estado ou de governo, além de executivos e representantes das principais empresas globais — um verdadeiro encontro dos centros de decisão mundial.
Do lado ucraniano, a mensagem operacional foi clara e pragmática: prioridades concretas sobre a mesa, que, nas palavras de Zelensky, devem traduzir-se em equipamentos e garantias. Entre os pontos citados figuram: mísseis para a defesa aérea, provisão de equipamento de proteção para civis e infraestrutura crítica, mecanismos financeiros e arranjos de segurança vinculantes.
Analiticamente, o episódio representa um movimento de alto risco político no tabuleiro internacional. Bloquear uma assinatura pública em Davos é calibrar poder de barganha sem romper abertamente alianças; é redesenhar, de maneira discreta, as linhas de influência entre Washington, Bruxelas e Kiev. A decisão dos EUA reflete a cautela de quem, ao mesmo tempo que sustenta um parceiro em guerra, preserva margem de manobra para negociações que podem alterar a arquitetura de segurança europeia.
Para observadores veteranos, trata-se de uma ilustração das “tectônicas de poder”: acordos consumam-se não apenas com documentos e cerimônias, mas com o consentimento tácito dos jogadores maiores no palco global. O resultado prático é a suspensão temporária de uma assinatura simbólica; o risco, porém, é a erosão da confiança se Kiev perceber que seus aliados priorizam timing político sobre a urgência material da reconstrução.
Em suma, a ausência de Zelensky em Davos não é apenas um fato protocolar. É um movimento calculado num xadrez estratégico, onde cada peça — desde um discurso no Fórum até um acordo assinado — pode determinar a forma como se reconfiguram as garantias de segurança e os alicerces da reconstrução na Ucrânia.




















