Por Marco Severini — Em entrevista exclusiva ao Corriere della Sera, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou reconhecer a legitimidade de ataques a alvos militares iranianos, mas advertiu que tais ações podem criar dificuldades práticas para a defesa da Ucrânia. A preocupação central reside na eventual escassez de mísseis e sistemas de defesa aérea, recursos que Washington e seus aliados no Médio Oriente poderiam precisar com urgência.
Segundo Zelensky, “é correto atacar os objetivos militares iranianos, mas poderemos encontrar dificuldades para encontrar os mísseis necessários para defender os nossos céus, porque os americanos e os aliados poderão precisar deles”. Ele lembrou o mecanismo pelo qual a Ucrânia compra armamento norte-americano com fundos europeus — referido como o programa Purl — e levantou a hipótese de que os Estados Unidos e seus parceiros prioritizem suas necessidades regionais no Médio Oriente em detrimento das entregas à Ucrânia.
No exame estratégico que oferece a quem observa o tabuleiro geopolítico, Zelensky avaliou também a posição de Vladimir Putin em relação a Teerã. Para o presidente ucraniano, o presidente russo permanece aliado do Irã, mas demonstra-se “mais fraco”: “fala, mas não age; mostra que é um aliado fraco dos iranianos”. A comparação com o comportamento russo na Síria — onde Moscou acabou por oferecer asilo a Bashar al-Assad e transferir armas — serve para sublinhar um padrão de apoio limitado e calibrado.
Zelensky sugeriu ainda que alguns equipamentos iranianos podem ter sido devolvidos ou replicados: citou a possibilidade de retorno de materiais e mencionou os drones Shahed, atualmente produzidos em fábricas na Rússia sob licença do Irã. Essa observação toca a lógica da «tectônica de poder»: transferências e contrapartidas que redesenham fronteiras militares não apenas no terreno, mas também na cadeia produtiva de armamento.
Sobre a legitimidade de respostas militares, o presidente ucraniano fez uma distinção clara entre o caso russo e o atual confronto envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. “Putin deve ser combatido porque invadiu a Ucrânia — violou o direito internacional com tropas terrestres”, disse ele. Já no episódio iraniano, Zelensky vê um cenário distinto: “Agora se ataca um regime que quer construir a arma atômica. Na minha leitura, trata-se de um cenário diferente”.
Finalmente, Zelensky advertiu para o risco humano e social: um conflito prolongado no Irã tenderia a aumentar o número de civis mortos e aprofundar a divisão interna entre apoiadores e opositores do regime. Em termos diplomáticos, a mensagem é clara: ações militares podem ser justificadas por objetivos de não proliferação, mas têm efeitos colaterais estratégicos que reverberam em outros teatros — inclusive, potencialmente, na capacidade da Ucrânia de se defender.
Em suma, a declaração de Zelensky é um movimento calculado no grande tabuleiro da geopolítica: reconhecer a razão de um ataque enquanto se expõe, com franqueza diplomática, às fragilidades logísticas que dele decorrem — alicerces frágeis que podem alterar a equação de defesa ucraniana.






















