Por Marco Severini — Em tom sóbrio e com a visão de um estrategista que observa o tabuleiro além dos lances imediatos, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky avisou que a Rússia está preparando uma nova onda de ataques dirigidos às infraestruturas da Ucrânia. A advertência foi feita em vídeo, com base em relatórios das agências de inteligência ucraniana, e traça as linhas de um desafio que permanece estruturalmente grave.
Segundo Zelensky, os dados colhidos pela inteligência mostram que os russos “não pretendem parar” e estão a montar operações específicas voltadas para destruir serviços essenciais. “Eles estão preparando novos ataques. Contra as infraestruturas”, afirmou o presidente, sublinhando a necessidade de concentração e prontidão já na primavera — assim como ocorreu durante o inverno mais duro desde o início do conflito.
O presidente destacou que cada ameaça deve merecer uma resposta e que os alvos russos precisam ser derrubados sempre que possível. Zelensky utilizou um exemplo regional para ilustrar a dificuldade da defesa: os ataques no Médio Oriente mostram que é praticamente impossível garantir 100% de proteção contra mísseis e drones Shahed, mesmo em países do Golfo que dispõem de sistemas de defesa aérea mais numerosos e tecnologicamente avançados.
“Há Shahed que não foram interceptados pelos sistemas de defesa na região. Nossa experiência na defesa é, em grande parte, insubstituível”, disse Zelensky, propondo que a Ucrânia está disposta a partilhar know‑how operacional com nações que prestaram apoio durante o inverno. Essa oferta revela não apenas solidariedade, mas uma tentativa de construir um eixo de saber prático na defesa contra ataques assimétricos.
O dirigente ucraniano também apelou à Europa para que construa “uma força real” — uma capacidade industrial e militar capaz de proteger céus, terras e mares contra ataques variados. Em termos concretos, isso passa pela ampliação da capacidade produtiva de sistemas de defesa aérea, tanto contra drones como contra mísseis balísticos.
Nos números apresentados por Zelensky, o inverno foi intenso: as forças russas lançaram 738 mísseis, mais de 14.600 bombas aéreas guiadas e quase 19.000 drones de ataque durante a estação. Apesar da magnitude desses ataques, o presidente afirmou que a Ucrânia superou “o inverno mais difícil de todos os anos de guerra”: o sistema energético foi preservado e um grande número de ofensivas foi repelido.
Essa narrativa não é apenas de resiliência; é um desenho estratégico. Ao afirmar que “os russos queriam transformar o inverno na destruição da Ucrânia”, Zelensky delineia a intenção adversária de corroer os alicerces sociais e logísticos. A resposta ucraniana, por sua vez, é um movimento calculado no tabuleiro, visando preservar infraestruturas críticas e ao mesmo tempo consolidar alianças que possam fornecer meios e capacidades industriais.
Do ponto de vista geopolítico, a advertência ucraniana implica duas frentes de ação: operacional — reforço e dispersão de sistemas de defesa, treino e contra‑ataque preciso; e diplomático‑industrial — acelerar a transferência de tecnologia, produção e integração europeia em defesa aérea. Em linguagem de cartografia estratégica, trata‑se de reforçar os contornos de defesa e reduzir as janelas de vulnerabilidade que os atacantes procuram explorar.
Em suma, a mensagem de Zelensky é um chamado à preparação e à cooperação. Num cenário onde os movimentos de poder continuam a redesenhar linhas invisíveis, a capacidade de antecipar e neutralizar ataques contra infraestruturas será decisiva para a estabilidade regional — e para o equilíbrio de forças que determinará os próximos lances neste conflito.






















