Por Marco Severini, Espresso Italia.
Um novo e trágico capítulo na tensa tensão entre Rússia e Ucrânia desenhou-se na noite passada na região de Zaporizhzhia, no centro-leste da Ucrânia. Autoridades locais informaram que um ataque russo com drones atingiu bairros residenciais da cidade de Vilniansk, deixando pelo menos três mortos — duas mulheres e um homem — e um ferido, segundo relato do chefe da administração militar do oblast, Ivan Fedorov, em mensagem publicada no Telegram.
O episódio ocorre às vésperas de novas conversas trilaterais entre Ucrânia, Estados Unidos e Rússia, agendadas para domingo em Abu Dhabi. No tabuleiro diplomático, a União Europeia busca endurecer instrumentos de pressão para forçar a abertura de negociações reais por parte de Moscou. A alta representante para os Assuntos Externos, Kaja Kallas, reiterou que os interlocutores russos que participam destas conversas são, em grande medida, militares sem mandato para selar a paz — e, portanto, não credenciados para um acordo duradouro.
“Neste momento eles estão apenas fingindo”, afirmou Kallas ao chegar à reunião do Conselho de Assuntos Externos em Bruxelas. A responsável europeia destacou o padrão de ataque deliberado contra civis, observando que em outubro 93% dos alvos atingidos eram civis, percentagem que, segundo ela, pode ter aumentado. Hospitais, escolas, blocos de apartamentos e infraestruturas críticas, especialmente energéticas, têm sido objetivamente visados numa estratégia que visa coagir a população ucraniana por exaustão e frio até forçar concessões.
Kallas defendeu, entre outras medidas, o ingresso da Rússia em listas de entidades vinculadas à lavagem de dinheiro — um mecanismo que o Kremlim utilizaria para financiar a máquina de guerra. “Qualquer meio que aumente a pressão sobre a Rússia para que inicie negociações de verdade é válido”, afirmou.
Em paralelo, o ministro das Relações Exteriores da Estônia, Margus Tsahkna, propôs a elaboração conjunta por países europeus de uma lista de combatentes russos a ser utilizada para interditar a entrada na área Schengen. Tsahkna alertou para o risco de migração pós-conflito: “Há quase um milhão de combatentes na Rússia — muitos são criminosos perigosos; a Europa precisa estar preparada e proibir já a entrada dessas pessoas”.
Do ponto de vista estratégico, o episódio em Vilniansk e as declarações em Bruxelas ilustram um redesenho de fronteiras invisíveis na geopolítica europeia: por um lado, a continuidade da pressão militar russa sobre pontos civis vulneráveis; por outro, o movimento coordenado de instituições ocidentais para criar barreiras jurídicas, financeiras e políticas que limitem a liberdade de manobra do Kremlin. Trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro, onde cada sanção e cada exclusão da arena financeira representa um avanço na disputa de capacidades e legitimidade.
Nos próximos dias, as atenções se voltarão a Abu Dhabi, onde a credibilidade das negociações será testada. A questão central permanece: quem, no extremo oposto do tabuleiro, tem legitimidade e mandato para encerrar um conflito que já redesenhou a tectônica de poder na Europa? Enquanto isso, a população ucraniana segue pagando um preço humano elevado — como se viu mais uma vez em Zaporizhzhia.
Marco Severini
Analista de geopolítica e estratégia, Espresso Italia






















