Por Marco Severini — Em um gesto que combina simbolismo público e gestão cuidadosa da imagem institucional, William e Kate divulgaram nesta data comemorativa uma foto inédita em preto e branco. A imagem mostra o príncipe e a princesa de Gales sorrindo, sentados lado a lado ao ar livre, em trajes casuais — um quadro intencionalmente sereno que reforça uma narrativa de estabilidade e proximidade com a sociedade.
O registro foi capturado em abril do ano passado, na propriedade de Anmer, no Norfolk, pelo fotógrafo Josh Shinner, e foi publicado com a legenda simples: “Buon San Valentino” acompanhada do emoji de coração rosa. A escolha do preto e branco e da legenda sucinta sinaliza um recuo do artifício espetacular em favor de uma comunicação mais contida, quase arquitetônica, como se os alicerces da monarquia fossem reafirmados pela simplicidade de um gesto afetivo.
Trata-se do segundo ano consecutivo em que o casal celebra publicamente o Dia dos Namorados nas redes oficiais. Em 2025, a postagem também teve forte apelo simbólico: a fotografia então divulgada foi extraída de um vídeo de setembro de 2024, quando a princesa Kate anunciou a interrupção do tratamento contra o câncer. Naquele registro, Kate aparece sorridente enquanto William lhe dá um beijo na bochecha — uma imagem destinada a transmitir resiliência e apoio mútuo em meio a uma narrativa de recuperação.
Do ponto de vista do que chamo de tectônica de poder público, ações deste tipo funcionam como movimentos precisos em um tabuleiro: visam consolidar confiança, neutralizar especulações e modular a reação tanto do eleitorado quanto dos atores institucionais. Não se trata apenas de afetividade privada exposta, mas de uma jogada de comunicação que preserva a aura de normalidade ao mesmo tempo em que humaniza a figura real.
Se, por um lado, a imagem celebra um momento íntimo, por outro ela opera como instrumento de diplomacia doméstica. A decisão de publicar fotografias tomadas em um ambiente familiar — Anmer, no Norfolk — reforça a narrativa de proximidade territorial e continuidade histórica. O uso de um fotógrafo identificado, Josh Shinner, confere ainda controle editorial sobre a imagem projetada, evitando filtragens indevidas e assegurando a qualidade narrativa desejada.
Em termos práticos, a repetição anual dessa celebração pública indica uma estratégia clara: estabelecer rituais simbólicos que ancoram a percepção de normalidade e confiança em momentos sensíveis. A fotografia de hoje, discreta e calculada, é um movimento que reafirma a presença pública do casal sem rupturas, ao mesmo tempo em que preserva os espaços privados que restam à família real.
Na tessitura mais ampla das relações de poder e da opinião pública, gestos assim são delicadas rotações no tabuleiro: não redesenham fronteiras, mas consolidam posições. E, em um contexto onde símbolos importam tanto quanto políticas concretas, a imagem divulgada por William e Kate funciona como um lembrete de que a monarquia procura manter, de maneira calibrada, tanto a sua estabilidade institucional quanto a sua humanidade.
Assinado,
Marco Severini — Espresso Italia






















