Por Marco Severini — Os proprietários chineses do Waldorf Astoria, o emblemático hotel de Park Avenue em Midtown Manhattan, estão se preparando para colocar o imóvel à venda. Segundo apurações do Wall Street Journal, a operação deverá ser coordenada pela banca de investimento imobiliário Eastdil Secured.
O estabelecimento, que ocupa um quarteirão inteiro e reabriu no último outono após uma reforma multimilionária de oito anos, voltou ao mercado com uma configuração reduzida: agora soma cerca de 375 quartos e 372 apartamentos residenciais à venda. Restaurantes, lojas e instalações adjacentes fariam parte do pacote à venda, enquanto os apartamentos permaneceriam em comercialização separada.
A reforma terminou com um atraso de aproximadamente cinco anos e excedeu em mais de US$ 1 bilhão o orçamento inicial. Especialistas do setor e executivos imobiliários descrevem a conversão do Waldorf como possivelmente a mais complexa e cara já tentada nos Estados Unidos — um verdadeiro problema de engenharia financeira e patrimonial que reconfigurou os alicerces do ativo.
Embora a Hilton mantenha um contrato centenário de gestão do hotel e não divulgue dados financeiros específicos, a disposição do Waldorf no mercado ocorre num momento de intenso dinamismo do setor de luxo em Nova York. Dados da CoStar mostram que, no ano passado, o segmento hoteleiro de alto padrão da cidade registrou tarifas médias diárias superiores a US$ 580 e receita por quarto disponível (RevPAR) acima de US$ 450.
Em 2014, uma companhia de resseguros chinesa adquiriu o Waldorf Astoria por US$ 1,95 bilhão, numa das maiores transações hoteleiras da época — quando o hotel ainda tinha cerca de 1.400 quartos. Hoje, diante dos custos monumentais da reforma, os atuais detentores não esperam recuperar integralmente o dispêndio. Com um preço de venda projetado em mais de US$ 1 bilhão, apenas um grupo restrito de compradores potenciais pode arcar com a operação: fundos soberanos do Oriente Médio e da Ásia, além de outros governos estrangeiros. Vale lembrar que fundos do Qatar já detêm propriedades icônicas de Manhattan, como o St. Regis e o Plaza.
Além da transação em si, a alienação do Waldorf é sintomática de um fenômeno mais amplo: a gradual retirada de proprietários imobiliários chineses do mercado dos Estados Unidos, acelerada pelo recrudescimento das tensões políticas e pela mudança nas regras domésticas de controle e circulação de capitais na China. O caso do executivo Wu Xiaohui, que adquiriu o hotel pelo grupo Anbang e depois foi preso sob acusações de captação fraudulenta de recursos e abuso de poder, ilustra essa dinâmica. O governo chinês acabou assumindo o controle da Anbang e transferiu a gestão dos ativos — incluindo o Waldorf — para a estatal Dajia Insurance Group.
Num sentido geopolítico e financeiro, estamos diante de um movimento que redesenha, de forma sutil, linhas de influência sobre ativos simbólicos no coração financeiro e diplomático dos Estados Unidos. A venda do Waldorf não é apenas um negócio imobiliário: é um lance no tabuleiro em que capitais, soberanias e reputações se confrontam. Quem avançar na aquisição herdará não só um edifício de luxo, mas também uma peça central na arquitetura simbólica de Manhattan — com implicações para fluxos de investimento e para a tectônica de poder transnacional.
Do ponto de vista prático, o comprador e a estrutura de financiamento que prevalecerem serão indicativos claros sobre a disposição de regimes e fundos soberanos em assumir ativos estratégicos em solo americano, bem como sobre a atratividade relativa do mercado hoteleiro de luxo de Nova York diante de pressões políticas e riscos reputacionais.






















