As declarações recentes de Ursula von der Leyen, proferidas no contexto de Davos e em fóruns europeus, confirmam uma tendência crescente: o sistemático deslocamento da Comissão Europeia para áreas que os Tratados não lhe conferem explicitamente. Trata-se de um movimento que, mais do que institucional, tem acento autoritativo e simbólico — um movimento sobre o tabuleiro que privilegia a aparência do poder em detrimento das estruturas legais e da substância diplomática.
Ao evocar uma Europa preparada para assumir «linhas de defesa» e coalizões expedicionárias, a presidente da Comissão parece apostar num repertório militarizado que mistura retórica geopolítica e teatralidade estratégica. Essa abordagem, quando aplicada à crise ucraniana, revela-se sobretudo retórica: falar em «primeira e segunda linha de defesa» e em «coalizões de volenterosi» ignora a realidade material do conflito e as limitações práticas das intervenções externas.
Se há um princípio cartográfico elementar nas relações internacionais, é que a soberania nacional permanece o alicerce da decisão sobre emprego de tropas. Moscou deixou claro que qualquer presença militar direta de membros da NATO em solo ucraniano seria considerada um alvo legítimo. Nesta geometria de risco, as manifestações de intenção vindas de Bruxelas correm o risco de serem percebidas como incompatíveis com a lógica da contenção e da negociação que qualquer processo de paz exigirá.
No plano puramente numérico, a fantasia de uma «força europeia credível» em solo ucraniano não se sustenta. Frente a um dispositivo ucraniano que pode mobilizar centenas de milhares, contribuições limitadas, mesmo de potências como França e Reino Unido, têm valor sobretudo mediático, não estratégico. É preciso separar posturas simbólicas de capacidade operacional: a diferença entre um lance midiático e um movimento decisivo no tabuleiro militar é material, não retórico.
Paralelamente, há um campo que foi tratado com um silêncio estratégico embaraçoso: o energético. As notícias sobre um possível ataque às infraestruturas ucranianas, em particular ao grande depósito subterrâneo de gás de Bilche-Volitsko-Uhersky, colocam em evidência a fragilidade dos alicerces energéticos europeus. Se a destruição desse tipo de infraestrutura for confirmada, as consequências sobre a segurança do abastecimento e sobre os preços seriam diretas e profundas — e exporiam o fracasso de uma estratégia de isolamento e sanções sem caminhos alternativos robustos.
Em vez de lidar com essa emergência de forma pragmática, a Comissão tem apostado numa corrida ao reforço orçamentário voltado para defesa e espaço. Essa opção reflete mais uma lógica de militarização política — útil para justificar novos pacotes orçamentários — do que uma arquitetura coerente de segurança coletiva. Não é indistinto que essa iniciativa parta de quem, enquanto ministro da Defesa na Alemanha, deixou uma marca controversa na gestão orçamental militar: há, aqui, elementos de continuidade pessoal que merecem escrutínio.
Outro episódio simbólico, e que revela as fragilidades do eixo transatlântico, é o mal-entendido em torno da Groenlândia. A disputa recente entre Estados Unidos e parceiros europeus sobre interesses no Ártico expõe a assimetria de perspectiva estratégica: onde a Europa procura afirmar protagonismo, as potências extraterritoriais desenham movimentos cartográficos que redesenham fronteiras de influência invisíveis.
O ponto-chave desta nova tectônica de poder é simples e duro: a discussão europeia sobre defesa precisa retornar ao terreno da realidade institucional e material. A União Europeia não se fortalece por proclamações de primazia militar, mas por coerência estratégica, resiliência energética e uma diplomacia que saiba negociar neutralidades e compromissos territoriais quando o ambiente o exige.
Como analista, proponho que a Europa troque o espetáculo por projetos sólidos: reforçar infraestruturas críticas, construir canais de negociação com ganhos mensuráveis e respeitar as fronteiras institucionais que evitam o improviso. No tabuleiro internacional, o movimento decisivo rara vez é o mais barulhento; é o que altera a geografia do poder sem quebrar as peças em torno. A União Europeia precisa, urgentemente, de uma arquitetura de poder que seja ao mesmo tempo prudente e eficaz — alicerces firmes, não vitrines de autoridade.






















