O chamado “caso Irã” oferece uma janela analítica privilegiada para compreender o que está em jogo no atual cenário de ebulição geopolítica. Em termos de arquitetura estratégica, assistimos a um confronto que é, em sua essência, a contestação de modelos de globalização: de um lado, o eixo do novo curso americano voltado para a reindustrialização e a territorialização da produção; do outro, a resistência do globalismo financeiro e dos serviços. É um movimento no tabuleiro mundial que redesenha fronteiras invisíveis e realinha corrediças de influência.
O novo curso dos EUA — persistente para além do ciclo eleitoral imediato — procura reproduzir, em chave ocidental, a lógica que fez dos Brics um motor econômico: retorno à produção industrial, estímulo à exportação de bens e uma contra-ofensiva à deslocalização. Esse projeto usa a concorrência intra-asiática como alavanca: acordos de livre-comércio entre Reino Unido e Índia e entre UE e Índia fazem parte de uma estratégia para fragmentar o campo bricsiano e moldar uma alternativa logística e infraestrutural à cada vez mais complexa Via da Seda.
Nesse contexto surge a proposta de uma Via do Algodão, uma rota que partiria da Índia, passaria pelos Emirados Árabes Unidos e pela Síria até alcançar o Ocidente — um corredor de mercadorias e influência que se apresenta como contraditório à hegemonia sino-asiática. Mas há um obstáculo estratégico, de densidade militar e cultural, capaz de deflagrar tensões em escala: o Irã.
O atual impulso político e diplomático dos EUA — fortemente pressionado por atores israelenses e por parte do eixo trumpiano — tende à lógica do “alinhamento ou isolamento”: dissuadir ou neutralizar estados que contrariem o novo desenho. Em termos práticos, trata-se de um plano de ac cerco-isolamento energético e infraestrutural que mira tanto a China quanto suas linhas de abastecimento e influência. No desenho do grande tabuleiro, o Irã é uma casa central, conectando o Paquistão, movimentos islâmicos regionais e redes de influência que podem desestabilizar esse projeto de redirecionamento.
Ao mesmo tempo, uma outra tendência macroeconômica altera o equilíbrio: o ouro tem acelerado como reserva de valor alternativa ao dólar, com bancos centrais de várias regiões recalibrando carteiras. Paralelamente, a economia japonesa — hoje um pilar na sustentação do endividamento americano — mostra sinais de tensão; a continuidade de uma política de elevação das taxas por parte de Tóquio pode complicar a sustentabilidade do débito dos EUA.
Logo, a pergunta estratégica permanece sobre a capacidade de Washington de “trumpizar” — isto é, de converter em política prática — um projeto de territorialização produtiva em cooperação com a Europa e a América Latina. A aceleração de acordos como o do Mercosul com a União Europeia interessa aos EUA porque reduz a dependência europeia da industrialização chinesa. Nesse sentido, Índia e países da América do Sul emergem como peças flexíveis e, por vezes, pragmáticas, numa dança que é tanto consciente quanto circunstancial.
Concluo: o mundo atual é uma tabuada de movimentos tectônicos, onde a Via do Algodão se apresenta como tentativa de redesenhar cadeias de suprimento e áreas de influência. O Irã, por sua posição geoestratégica e complexidade cultural, permanece como um possível detonador — não apenas de confrontos regionais, mas de rupturas que reverberariam na tectônica global do poder. A estabilidade futura dependerá da habilidade dos atores em construir alicerces diplomáticos sólidos, em vez de apostar exclusivamente em cercos ou implosões.



















