Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas invisíveis no tabuleiro político venezuelano, o Parlamento aprovou a nova lei de amnistia, destinada a possibilitar o relaxamento de penas e o eventual libertamento de centenas de prisioneiros políticos acumulados ao longo de décadas de liderança chavista.
O texto, apresentado no final de janeiro pela presidente interina Delcy Rodríguez, avançou após uma rodada de modificações que desobstruíram o impasse verificado na semana anterior. Segundo o trâmite constitucional do país, a lei seguiu para a apreciação e promulgação da própria presidente interina.
Concebida como um instrumento de reconciliação nacional, a proposta abrange pessoas processadas ou condenadas por delitos vinculados a fatos de natureza política ocorridos entre a tentativa de golpe de abril de 2002 e o término de 2025. No entanto, o dispositivo legal contém exclusões explícitas que preservam os alicerces do Estado de direito: ficam fora do alcance da amnistia aqueles que promoveram ou participaram de ações armadas contra cidadãos, cuja soberania ou integridade nacional foi diretamente ameaçada.
O artigo 9º delimita ainda um rol de crimes que não se sujeitam ao perdão legislativo — entre eles, graves violações de direitos humanos, crimes contra a humanidade, homicídio voluntário, lesões gravíssimas, tráfico de drogas e delitos previstos na legislação anticorrupção. Essa conjunção de critérios mostra uma leitura estratégica: a lei busca aliviar tensões políticas sem comprometer os pilares de responsabilização penal.
Após a promulgação, Delcy Rodríguez afirmou: “É preciso saber pedir perdão, e é preciso também saber recebê-lo” — frase que, tomada como sinal político, pretende projetar uma imagem de abertura e conciliação. Na prática, o mecanismo pode resultar em solturas em massa, mas também será objeto de intenso escrutínio jurídico e político, tanto no plano interno quanto na arena internacional.
Do ponto de vista geopolítico, este é um movimento calculado: a concessão de amnistia funciona como um lance silencioso numa partida de xadrez diplomático, capaz de reconfigurar relações internas e recalibrar pressões externas. A administração procura, assim, consolidar estabilidade social ao mesmo tempo em que preserva ferramentas de repressão contra aqueles considerados perigosos ao núcleo do poder.
Resta observar a execução: quem será abrangido nos procedimentos subsequentes, qual será o critério administrativo para aplicação do perdão e como organismos de direitos humanos e potências externas reagirão às primeiras absolvições ou libertações. A tectônica de poder venezuelana encontra-se, mais uma vez, submetida a um redesenho sutil — menos de fronteiras físicas, mais de legitimidade e memória política.
Em suma, a lei de amnistia aprovada pelo Parlamento representa um movimento decisivo no tabuleiro nacional, com efeitos práticos imediatos sobre a população carcerária política e implicações estratégicas duradouras para a governabilidade e as relações exteriores do país.




















