Por Marco Severini — Espresso Italia
Em um movimento decisivo no tabuleiro institucional venezuelano, Tarek William Saab, que ocupava o posto de Procurador‑Geral desde 2017, apresentou sua renúncia formal à Assembleia Nacional, encerrando quase nove anos à frente do Ministerio Público. A saída ocorre num momento de redesenho de poderes após a queda de Nicolás Maduro e a ascensão de sua vice, Delcy Rodríguez, em um cenário marcado por intensa pressão internacional.
A nomeação provisória para o cargo recai sobre o advogado Larry Devoe, figura apontada como próxima a Delcy Rodríguez e ao irmão dela, Jorge Rodríguez, atual presidente da Assembleia. A substituição sinaliza uma leitura pragmática do novo governo interino: consolidar alicerces leais nas instituições-chaves para responder rapidamente a decisões de política interna, como a recente lei de amnistia promulgada pela presidência interina.
Ao longo de seu mandato, Saab foi uma figura rotulada como controversa. Organizações de direitos humanos e opositores atribuíram‑lhe a instrumentalização do sistema judiciário para fins políticos, transformando processos em vetores de repressão durante o auge do governo Maduro. Em 2018, foi alvo de acusações de suposto enriquecimento ilícito relacionadas a contratos; o procedimento, contudo, acabou arquivado pelo próprio órgão que ele dirigia, o que acentuou críticas sobre conflitos institucionais e a fragilidade dos mecanismos de controle interno.
Fontes próximas ao processo relataram que Saab sofreu pressões internas para deixar o cargo, intensificadas após a promulgação da lei de amnistia que prevê a libertação de centenas de detidos políticos condenados nas últimas décadas desde o início do chavismo. A medida — apresentada como um gesto de reconciliação e resposta a demandas externas — já permitiu, entre outros casos, a libertação de figuras como Pablo Guanipa, aliado de opositores históricos, e tornou-se um nó de tensão entre a nova administração e setores que resistiam a alterações na pasta da Justiça.
Do ponto de vista estratégico, a movimentação revela um duplo objetivo: neutralizar resistências institucionais remanescentes do ciclo anterior e construir uma narrativa de normalização que atenda tanto a pressões externas — especialmente de Washington — quanto às necessidades de governabilidade interna. A escolha de um nome associado aos Rodríguez reforça uma arquitetura de confiança, essencial quando se tenta reconfigurar o sistema judicial sem provocar rupturas mais amplas.
Os próximos dias serão determinantes. A transição provisória testa a capacidade do novo executivo de equilibrar pressões diplomáticas, demandas por justiça e estabilidade interna — um jogo de xadrez em que cada peça removida ou colocada no tabuleiro altera trajetórias políticas e jurídicas.
Continuarei acompanhando e analisando os desdobramentos institucionais com olhar de diplomata e estrategista: as decisões tomadas agora estabelecerão os alicerces frágeis da diplomacia e da governança venezuelanas pelos meses vindouros.
Marco Severini
Analista sênior de geopolítica e estratégia internacional — Espresso Italia





















