Donald Trump formalizou, em Davos, a criação do Board of Peace para a crise de Gaza, convidando uma série de Estados e atores internacionais a compor o novo organismo. Entre os chamados está o Vaticano — um convite que, segundo o cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado da Santa Sé, está sendo atualmente objeto de análise cuidadosa.
Falando à imprensa após um encontro no Antonianum promovido pelo Observatório for Independent Thinking, Parolin confirmou que o Papa — referido no convite como Papa Leão XIV — recebeu a proposta e que a Santa Sé “está vendo o que fazer”. O cardeal explicou que a decisão demandará tempo, por se tratar de uma questão que exige ponderação sobre princípios, métodos e impacto real na vida dos palestinos.
No palco de Davos, Trump assinou o documento constitutivo do Board of Peace e convidou os líderes presentes a rubricarem o acordo. A cerimônia contou com a presença de delegações de cerca de vinte países, embora notáveis ausências e recusas tenham marcado o evento: o primeiro-ministro israelense Netanyahu não compareceu, o Reino Unido oficializou seu não, enquanto o Kremlin informou que ainda avalia a proposta — embora o presidente Putin tenha sido divulgado pelo próprio Trump como participante, com menção a um aporte de 1 bilhão de dólares a partir de ativos congelados nos EUA.
Entre os Estados que teriam anunciado adesão estão Arábia Saudita, Jordânia, Indonésia, Paquistão e Qatar. No entanto, várias capitais manifestaram reservas sobre os poderes, a transparência e o papel do novo organismo, bem como sobre um financiamento atrelado a valores elevados. Segundo informações circuladas na ocasião, a entrada no Conselho exigiria um compromisso financeiro de 1 bilhão de dólares por três anos — algo que a Santa Sé, por sua natureza e limitações, não estaria apta a cumprir.
Parolin foi taxativo ao distinguir a posição da Santa Sé das responsabilidades materialmente financeiras dos Estados: “a nossa situação é evidentemente diferente”, disse, acrescentando que a solicitação não se presta a uma participação econômica no sentido convencional, e que haverá avaliações específicas sobre a forma de contribuição que a Igreja Católica poderia oferecer — essencialmente moral, diplomática e humanitária.
Como analista das relações internacionais, observo que este convite representa um movimento decisivo no tabuleiro diplomático: uma tentativa de redesenhar, por vias institucionais alternativas, a arquitetura de intervenção sobre o conflito israelo-palestino. A proposta de um Board of Peace com financiamento substancial é, ao mesmo tempo, uma oferta de recursos e uma proclamação de liderança política.
O desafio para a Santa Sé reside em calibrar uma resposta que preserve seus alicerces morais e a credibilidade histórica como mediadora, sem que sua participação seja instrumentalizada para fins geopolíticos que possam comprometer a proteção dos direitos dos palestinos, em especial o objetivo de lhes assegurar “uma terra onde viver”.
Num cenário em que potências reavaliam alianças e instrumentos de influência, a decisão do Vaticano deverá conciliar prudência diplomática, solidariedade humanitária e uma leitura estratégica do impacto a longo prazo sobre a estabilidade regional. A tectônica de poder em jogo exige paciência e precisão — como um lance de xadrez que decide não apenas a peça, mas a configuração futura do tabuleiro.
Restam, portanto, perguntas fundamentais: que mandato e que mecanismos de governança terá o Board of Peace? Como serão assegurados a transparência e a legitimidade? E, crucialmente, de que modo o esforço trará resultados concretos para a população palestina, respeitando o princípio de autodeterminação?
A Santa Sé seguirá avaliando e, quando necessário, afirmará sua posição pública, consciente de que cada gesto diplomaticamente calculado tem repercussões longe das luzes do palco internacional.





















