Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que discretamente, linhas de influência no tabuleiro político italiano e europeu, o eurodeputado Roberto Vannacci deixou de constar como membro do grupo Patrioti per l’Europa (PfE) no Parlamento Europeu desde 4 de fevereiro e figura agora entre os representantes do grupo Misto, anunciou a presidente da Eurocâmara, Roberta Metsola, ao abrir a sessão plenária.
A mudança formal coincide com a constituição, dois dias depois, de uma nova formação política, a associação Futuro Nazionale, registrada em cartório na Toscana em 6 de fevereiro. Segundo relatos dos corredores políticos, cinco nomes subscreveram o ato constitutivo: o próprio Vannacci, seu braço-direito Massimiliano Simoni — único eleito do grupo nos conselhos regionais da Toscana —, os deputados Rossano Sasso e Edoardo Ziello, além de Cristiano Romani, um dos fundadores do movimento ‘Mondo Contrario’.
Na arquitetura interna da nova sigla, apurou-se que Vannacci assumirá a presidência da associação e Simoni terá o papel de coordenador; a figura de secretário não estaria prevista no desenho organizacional inicial. Essa composição reflete uma estratégia de comando compacto, típica de movimentos que nascem com foco em coerência ideológica e disciplina interna.
No mesmo compasso, à Câmara dos Deputados italiana, os parlamentares Sasso e Ziello comunicaram, conforme anunciado pelo presidente de turno da Câmara, Fabio Rampelli, sua passagem para o grupo Misto, após a desvinculação da Lega. Trata-se de um reposicionamento institucional que abre espaço para recalibrações nas maiorias e nas dinâmicas de votação.
Em discurso veemente, Edoardo Ziello associou o episódio a uma questão de confiança sobre o decreto relativo à Ucrânia, afirmando que a iniciativa do novo agrupamento representaria uma vitória pioneira de Futuro Nazionale e acusando o líder da Lega, Matteo Salvini, de evitar a votação do emendamento que pedia a supressão da autorização para envio de novas armas em apoio a Zelensky. Ziello sustentou que a solicitação de voto de confiança teria o único objetivo de obstruir a análise do emenda, mas garantiu que os três ordens do dia de sua bancada, substanciais ao mesmo propósito, não poderiam ser barrados indefinidamente.
As palavras de Ziello — que prometeu responsabilização política diante da nação por impedir a votação do texto que, segundo ele, refletiria a vontade da maioria dos italianos — sinalizam um confronto institucional sobre a política externa e a postura do governo quanto ao envio de armamentos à Ucrânia. É uma disputa que extrapola o âmbito partidário e se projeta como tema de soberania parlamentar e debate democrático.
Do ponto de vista geopolítico, o episódio ilustra um movimento de peças no tabuleiro europeu: a formação de um novo polo nacionalista conservador com representação parlamentar tanto em Roma quanto em Estrasburgo altera, ainda que modestamente, os alicerces das coalizões. Trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis na tectônica do poder, com implicações sobre votações sensíveis que tratam de política externa, segurança e alinhamentos estratégicos.
Enquanto a nova associação estrutura sua liderança e busca consolidar uma identidade pública, o próximo passo será testar sua eficácia política nas bancadas e, sobretudo, nas votações-chaves sobre a Ucrânia — onde se medirá a capacidade de transformar discurso em influência prática nas instituições.





















