Entre 1945 e o final dos anos 1980, a Europa Ocidental viveu um período de crescimento material, mobilidade social e estabilidade política que, em muitos aspectos, não teve precedentes. Os indicadores são convergentes: aumento dos salários reais, acesso universal à saúde e à educação, a casa deixando de ser privilégio para tornar-se realidade para muitas famílias, queda das desigualdades e o trabalho reposicionado no centro da vida pública. Não se trata de nostalgia, mas de observação analítica. A pergunta crucial é: por que isso ocorreu?
É tentador reduzir aquele êxito a um gesto de grandeza moral das elites ou a uma virtude intrínseca das instituições liberais. Mas essa leitura é simplista. Nem os dirigentes da época eram anjos, nem o capitalismo havia se transfigurado por encanto. A explicação mais convincente é de natureza sistêmica e externa: a presença de um antagonista credivel no coração do continente.
Com todas as suas contradições, a URSS representou um vinclo — uma força que obrigou o Ocidente a organizar-se de modo a responder às demandas sociais. Moscou não foi um modelo a ser replicado em detalhes; foi, contudo, uma ameaça política real à legitimidade do sistema capitalista europeu. A existência de fortes partidos comunistas, sindicatos radicados e uma alternativa percebida como possível impuseram compromissos práticos: o desenvolvimento do welfare, políticas fiscais progressivas, estabilidade de emprego e investimento público intensivo não foram dádivas espontâneas, mas instrumentos de competição política.
Em termos geopolíticos, essa dinâmica funcionou como um xeque posicional no tabuleiro europeu: a possibilidade concreta de radicalização a leste criou um poderoso incentivo à redistribuição e à inclusão. A classe média, longe de ser só um produto orgânico do crescimento, tornou-se o pivô da estabilidade porque interessava ao próprio sistema que ela existisse. Em outras palavras, é plausível afirmar que a Europa deve à URSS mais do que costuma admitir — não porque o bloco soviético garantisse uma vida melhor a seus cidadãos, mas porque forçou o Ocidente a melhorá‑la para os seus.
Com o colapso do bloco soviético, desapareceu não apenas um regime, mas uma arquitetura completa de confronto. Sem esse espelho adversário, o capitalismo ocidental perdeu o imperativo comparativo que o pressionava a demonstrar resultados sociais tangíveis. O resultado, ao longo das décadas seguintes, tem sido um reposicionamento do debate público e das prioridades políticas, com consequências palpáveis para o Estado de bem‑estar.
Esta leitura exige cautela: reconhecer o papel disciplinador da URSS na formação do bem‑estar europeu não equivale a exaltar o seu sistema. Trata‑se de compreender os alicerces históricos e a tectônica de poder que moldaram instituições. Como em uma partida de xadrez de alto nível, movimentos adversos forçam respostas; a arquitetura social europeia modernizou‑se em grande parte porque o tabuleiro exigia uma defesa eficiente.
Em suma, a história daquele “trintenato dourado” não é um conto edificante de virtude espontânea, mas a consequência de uma relação de pressão estratégica entre modelos concorrentes. Entender essa dinâmica é imprescindível para qualquer projeto sério de política pública e para a leitura realista das transformações do último meio‑século.
Marco Severini — Espresso Italia
















