Por Marco Severini – Em um movimento que desenha um novo episódio na **tectônica de poder** transatlântica, os líderes dos 27 países da União Europeia reúnem-se em Bruxelas para forjar uma resposta coordenada às recentes provocações do Governo dos Estados Unidos liderado por Donald Trump.
O chamado «bazooka comercial», instrumento jurídico anticorrupção e de defesa econômico-comercial introduzido em 2023 para proteger o bloco de dazis punitivos, boicotes e outras medidas coercitivas, permanece no tabuleiro como uma opção dissuasiva. Funcionários europeus lembram que a força desse mecanismo reside, muitas vezes, em sua capacidade de ser brandido com credibilidade, mais do que na sua aplicação imediata.
O estopim da crise foi a hipótese — levantada pela administração americana — de novas tarifas contra países que tenham prestado auxílio à Groenlândia. Em reação, o Parlamento Europeu, reunido em Estrasburgo, votou pelo adiamento da ratificação do acordo comercial entre União Europeia e Estados Unidos fechado em julho passado.
Um encontro realizado ontem em Davos entre Donald Trump e o primeiro‑ministro neerlandês Mark Rutte foi descrito por Rutte como “muito positivo”. Rutte afirmou que o acordo sobre a região visa, antes de tudo, impedir que Rússia e China obtenham posições de vantagem, tanto econômicas quanto militares, na Groenlândia. Apesar das declarações públicas, a atitude dos Estados‑membros permanece cautelosa — há a percepção clara de que as intenções americanas exigem escrutínio e coordenação.
No mesmo Conselho extraordinário chegará à mesa o dossiê do Mercosul. O Parlamento votou pelo envio do acordo à Corte de Justiça da UE para um parecer legal; todos os deputados franceses, independentemente do grupo político, apoiaram o adiamento, exibindo uma posição nacional consolidada. A Comissão Europeia manifestou rammarico diante de um voto que pode adiar a aprovação por 18 a 24 meses, após 25 anos de negociações que pareciam próximas do fim.
Do ponto de vista procedimental, o Conselho já havia aprovado a aplicação temporária de parte do pacto, o que pode tornar a discussão entre os chefes de Estado relativamente célere. No entanto, o plano político é outra partida: a mobilização dos agricultores e o debate interno sobre padrões e concorrência permanecem como peças centrais e complicam qualquer avanço.
Também está previsto que surja no debate a proposta do denominado Board of Peace sugerido por Washington, tema que, segundo fontes europeias, deverá receber uma análise política e um amplo intercâmbio entre líderes. A linha predominante entre os Estados‑membros é de dúvidas — por vezes acentuadas — sobre vários pontos dessa iniciativa, embora haja disponibilidade para o diálogo com os Estados Unidos.
Num tabuleiro onde cada movimento reverbera além das fronteiras visíveis, a União busca hoje uma estratégia que alie credibilidade e contenção: evitar escaladas, proteger mercados e, sobretudo, preservar os alicerces frágeis da diplomacia transatlântica. A decisão que sair de Bruxelas terá efeitos imediatos na arquitetura das relações comerciais e na definição de um novo eixo de influência no Atlântico Norte.
Em suma, trata‑se de uma partida diplomática complexa — um momento em que a UE tenta transformar ameaça em persuasão, e onde a prudência estratégica poderá ser a jogada decisiva.






















