Por Marco Severini, Espresso Italia
Em um discurso medido e estratégico no Fórum de Davos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deixou claro que a União Europeia vê os EUA não apenas como aliados, mas como amigos. Ainda assim, advertiu que a reação comunitária às tarifas adicionais ameaçadas pelo presidente Donald Trump será inflexível, unida e proporcional.
Von der Leyen posicionou a Europa como um ator determinado em defesa dos interesses geopolíticos e econômicos do bloco. “A segurança do Ártico só pode ser alcançada em conjunto”, afirmou, lembrando que os nossos membros setentrionais da NATO já dispõem de forças preparadas para operar no Ártico. Nesse xadrez estratégico, a imposição de tarifas adicionais entre aliados de longa data é um erro que compromete a estabilidade do tabuleiro.
Ao sublinhar que “um acordo é um acordo”, a presidente recordou o entendimento comercial firmado entre a União Europeia e os Estados Unidos no último julho, ressaltando que, em política como nos negócios, a assinatura tem peso. “Quando amigos se apertam a mão, isso precisa significar algo”, afirmou, numa advertência velada de que rupturas artificiais podem fragilizar alicerces comuns.
Von der Leyen também vinculou a disputa comercial a uma preocupação maior: a proteção da soberania e da integridade territorial da Dinamarca e da Groenlândia, que, segundo ela, “não são negociáveis”. Como movimento concreto, anunciou que a UE está a preparar um massivo aumento de investimentos europeus na Groenlândia. A iniciativa prevê trabalhar lado a lado com a Groenlândia e a Dinamarca para avaliar mecanismos de apoio à economia e às infraestruturas locais.
Na vertente de segurança, a mensagem foi clara: a Europa não pretende isolar-se, antes reforçar parcerias. “Cooperaremos com os Estados Unidos e todos os parceiros para uma segurança ártica mais ampla”, disse von der Leyen, citando a intenção de estreitar laços com Reino Unido, Canadá, Noruega, Islândia e outros atores relevantes. Trata-se de um redesenho de influências no extremo Norte, onde a tectônica de poder exige coordenação e investimentos de longo prazo.
Em tom reflexivo, a presidente da Comissão qualificou choques geopolíticos — como o atrito com os EUA em torno da Groenlândia — como oportunidades para edificar “uma nova Europa independente”. A mudança, segundo ela, é estrutural e permanente; a nostalgia pelo antigo equilíbrio não reconstrói os fundamentos de um novo sistema.
Para ilustrar a dimensão histórica da transformação, von der Leyen evocou 1971, quando os Estados Unidos separaram o dólar do lastro em ouro, provocando o colapso prático do sistema de Bretton Woods e alterando o ordenamento econômico global. Esse episódio, declarou, criou as condições para reconfigurações econômicas e políticas que também impõem hoje uma resposta europeia pensada para o longo prazo.
Em síntese, a posição delineada em Davos combina firmeza e projeto: defesa dos interesses imediatos por meio de uma resposta inflexível às tarifas ameaçadas, paralelamente a um plano de fortalecimento econômico e de segurança no Ártico. É um movimento que visa preservar a estabilidade do tabuleiro internacional, proteger aliados e amigos e erguer alicerces mais sólidos para a autonomia estratégica europeia.






















