Por Marco Severini — Espresso Italia
Em um movimento que revela o entrelaçamento entre segurança energética e estratégia geopolítica, a União Europeia estaria pressionando a Ucrânia para permitir inspeção e, se necessário, o uso do oleoduto Druzhba. A iniciativa nasce numa conjuntura de emergência no Guerra no Oriente Médio, que empurrou os preços do petróleo para patamares próximos a US$ 90 o barril, comprimindo a margem estratégica dos consumidores europeus.
O apelo para acesso ao oleoduto Druzhba parte sobretudo de Budapeste e Bratislava — a Hungria e a Eslováquia — principais destinatárias do fluxo que historicamente atravessa a Eurásia. Segundo reportagens, a estação de bombeamento de Unecha, na oblast de Bryansk, foi atingida por drones em janeiro, incidente que Kiev atribui a um ataque aéreo russo. Moscou, por sua vez, sustenta que o fechamento foi deliberado por autoridades ucranianas.
O Financial Times destacou que o caso ganhou contornos estratégicos: para além dos danos técnicos, emerge um dilema político — garantir combustível para a Europa Central ou preservar a narrativa e os meios de pressão no tabuleiro mais amplo do confronto entre Rússia e Ucrânia.
Relatos ucranianos informam que os danos ao oleoduto Druzhba foram severos: um tanque de armazenamento com cerca de 75 mil metros cúbicos de petróleo foi consumido por incêndio que levou dez dias para ser controlado, segundo Sergii Koretskyi, CEO da Naftogaz. Equipes de reparo tiveram de operar em áreas ainda perigosas, desviando recursos escassos e expondo trabalhadores a riscos consideráveis.
Em Budapeste o tom foi outro: as autoridades húngaras alegam que o incidente comprometeu a segurança energética do país e chegou a afirmar que tais atos poderiam tentar arrastar a Hungria para um conflito maior. Não menos relevante, vozes da região e analistas insinuam que o próprio fechamento do oleoduto Druzhba poderia ter sido um falso ataque de bandeira atribuível à Ucrânia, na tentativa de gerar pressão política sobre Bruxelas e parceiros.
A Comissão Europeia, diante do quadro, e alguns governos da Ucrânia vêm pedindo acesso direto às infraestruturas para verificar os danos de forma independente e garantir que os trabalhos de reparação avancem com transparência. Trata-se de uma jogada diplomática delicada: permitir inspeção equivaleria a um movimento no tabuleiro que pode reduzir a pressão sobre os mercados de energia, mas também implica concessões de soberania e riscos de instrumentalização política.
O episódio expõe as fraturas na arquitetura de segurança europeia: do eixo de influência entre Moscou e Europa Central às hesitações de Bruxelas diante de líderes como Viktor Orban, a tectônica de poder reaparece como fator determinante. Ao mesmo tempo, a possibilidade de escalada no Golfo Persa e debates sobre respostas americanas a Teerã adicionam uma camada de incerteza que reverbera até os dutos que cruzam o continente.
Do ponto de vista estratégico, pedir verificação e reparos do oleoduto Druzhba é um movimento racional para mitigar oscilações nos preços do petróleo. Contudo, é também uma jogada que redesenha fronteiras invisíveis — entre soberania, segurança e dependência energética. A União Europeia e seus parceiros precisam, com prudência arquitetônica, estabilizar os alicerces frágeis da diplomacia energética antes que a próxima tempestade geopolítica transforme infraestruturas críticas em peças sacrificáveis no tabuleiro.
Em suma: a pressão para inspeção do oleoduto Druzhba é tanto técnica quanto política, e sua resolução exigirá uma combinação de transparência, garantias de segurança e delicado alinhamento entre os interesses nacionais da Hungria, da Eslováquia, da Ucrânia e das instituições europeias — um final de partida cujo desfecho influenciará os mapas de poder na Europa Central.






















