Por Marco Severini — La Via Italia
O debate contemporâneo sobre política externa e comércio revela um padrão recorrente: a convicção ocidental de que abrir mercados, aplicar pressão política ou provocar rupturas governamentais conduzirá automaticamente a resultados favoráveis. Este raciocínio simplista, que entrelaça economia e geopolítica sem antes reforçar alicerces nacionais, é um risco estratégico cujas consequências já começam a se materializar.
A assinatura do acordo entre a União Europeia e o Mercosur ilustra bem a tentação de preferir atalhos comerciais à reconstrução da competitividade doméstica. Liderada por interesses alemães, a Europa parece acreditar que bastará a liberalização para que sua indústria e agricultura retomem vantagem. É uma aposta otimista demais diante de realidades concretas: os países do Mercosur não produzem microchips ou lançadores espaciais, mas detêm vantagens estruturais relevantes em agricultura de produtividade elevada e custos energéticos muito mais baixos.
Em várias áreas agroindustriais, práticas tecnificadas no Uruguai ou no Brasil permitem múltiplas safras anuais — até quatro colheitas em comparação com a sazonalidade europeia — e sistemas de gestão pecuária altamente avançados. Paralelamente, a energia no bloco sul-americano pode custar entre 30% e 70% menos que na Europa; exemplos extremos, como a produção elétrica do Paraguai a uma fração dos custos alemães, tornam evidente que a competição será direta e dura, não simbólica.
O cenário que se desenha é o de uma possível deslocalização industrial acelerada. Sem um programa amplo de reestruturação industrial — que inclua investimento em infraestrutura energética, pesquisa avançada e política industrial coerente — a abertura de mercados corre o risco de se transformar num boomerang: sobrevivem nichos de alto valor agregado (vinhos, azeites, queijos, luxo alimentar), insuficientes para sustentar a massa crítica industrial de um continente.
Ao mesmo tempo, essa mesma lógica de “resultado antecipado” aparece na prática externa: a hipótese de que o colapso de um regime conduz automaticamente a um governo pró-ocidental. A experiência recente demonstra o oposto. Estados como a Síria mostraram que o vácuo de poder pode ser preenchido por atores cujas preferências contrariam interesses democráticos ocidentais; o Irã é um caso onde a dinâmica interna, a demografia e os laços regionais complicam qualquer leitura simplista.
O Irã é marcado por uma população jovem — cerca de 27% entre 18 e 35 anos — mais conectada a fontes de informação diversas e com aspirações distintas das gerações que consolidaram o atual sistema. Ainda assim, o regime dispõe de estruturas de poder resilientes e de instrumentos de coesão que não se desmontam por decreto externo. As sanções prolongadas e as pressões externas, ao longo das décadas, moldaram uma economia circunspecta, mas também um aparato político adaptado à adversidade.
Concluo com uma imagem de tabuleiro: mover peças por impulso, sem avaliar a arquitetura subjacente, frequentemente abre linhas de ataque para o adversário. A Europa e o Ocidente precisam de um plano de longo prazo — reconstrução industrial, segurança energética e estratégia diplomática baseada em realismo — se não quiserem perder setores estratégicos e ver seus objetivos geopolíticos transformados em efeitos colaterais indesejados.
Em suma, o desafio não é apenas de comércio ou de mudança de regime: é de rede de segurança estratégica. Ignorar a resiliência dos sistemas que se pretende transformar é deixar o tabuleiro vulnerável a movimentos decisivos de atores já posicionados.






















