Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha — como num tabuleiro de xadrez geopolítico — os alinhamentos entre Europa e Sul da Ásia, foi formalizado, à margem do 16º encontro UE–Índia, não apenas um acordo comercial, mas sobretudo um novo pilar de segurança. A assinatura do acordo de livre comércio foi acompanhada pela criação da Parceria UE-Índia para Segurança e Defesa, um instrumento cuja substância ultrapassa as planilhas do comércio e alcança a estabilidade das rotas, das indústrias críticas e das tecnologias sensíveis.
Em entrevista à Adnkronos, o senador Giulio Terzi di Sant’Agata, presidente da Comissão de Políticas da União Europeia do Senado, e Vas Shenoy, representante-chefe para a Itália da Indian Chamber of Commerce, explicaram os fundamentos estratégicos dessa aproximação. Para ambos, a convergência não é acidental: trata-se de um reposicionamento consciente de Bruxelas e Nova Délhi frente a uma ordem internacional marcada por tensões estruturais.
O primeiro ponto, sublinhado com clareza diplomática, é que o livre comércio entre duas grandes democracias — que juntas abarcam cerca de dois bilhões de pessoas e quase um quarto do PIB mundial — exige uma moldura de segurança. Sem essa moldura, as cadeias de valor e as infraestruturas críticas permaneceriam vulneráveis. Assim, o novo pacto reconhece que comércio, segurança marítima e autonomia tecnológica são faces da mesma peça: a prosperidade depende de previsibilidade e regras partilhadas.
Do lado europeu, a assinatura reflete a determinação de reduzir dependências estratégicas, com especial atenção à necessidade de diminuir vulnerabilidades relativas a países cujas políticas podem divergir dos interesses ocidentais. A parceria com a Índia, potência democrática em ascensão no Indo-Pacífico, aparece como contrapeso natural: um aliado que combina capacidades industriais, plataforma tecnológica e influência geoestratégica.
Para Nova Délhi, o momento é igualmente oportuno. A diversificação de alianças e a consolidação de um leque de parceiros confiáveis reforçam a estratégia indiana de maximizar margem de manobra no cenário global, sem rupturas abruptas. A cooperação proposta toca setores sensíveis — de tecnologias avançadas a logística marítima — e abre espaço para intercâmbio em treino conjunto, partilha de informações e proteção de infraestruturas críticas.
Do ponto de vista marítimo, o acordo tem um significado especial. No mapa das rotas comerciais, o Mediterrâneo e o Indo-Pacífico convergem em desafios comuns: segurança das linhas de comunicação, proteção de infraestruturas portuárias e resposta cooperada a ameaças híbridas. A arquitetura deste pacto pretende operar como um alicerce que fortalece a presença e a resiliência dessas rotas, com atenção à crescente presença — direta ou por procuração — de atores externos no cenário euro-mediterrâneo.
Outro elemento mencionado no diálogo com Terzi e Shenoy é o papel de estruturas multilaterais e iniciativa industriais, como o IMEC, na consolidação da autonomia estratégica europeia. Instrumentos de cooperação em P&D e certificação tecnológica serão essenciais para que a parceria não fique restrita a compromissos diplomáticos, mas se traduza em capacidades concretas.
Em síntese, estamos diante de uma jogada que busca equilibrar o tabuleiro global: a Parceria UE-Índia para Segurança e Defesa não é apenas um complemento ao comércio, é a tentativa de tecer uma frente de estabilidade, resistência e regras partilhadas, que responda tanto aos riscos econômicos quanto aos desafios geopolíticos. A diplomacia aqui opera como arquitetura — erigindo alicerces — e como cartografia — redesenhando, sutilmente, fronteiras de influência.
Como observador da cena internacional, concluo que o acordo marca um salto qualitativo. Ainda haverá trabalho para traduzir intenções em mecanismos operacionais, mas a semente está plantada: duas democracias configuram agora um eixo de influência que pode, no futuro próximo, alterar equilibrios regionais e reforçar a autonomia estratégica europeia num mundo de tensões crescentes.






















