Por Marco Severini — Em um movimento que pode redesenhar linhas de influência e abrir um novo capítulo nas relações euroasiáticas, a União Europeia e a Índia reúnem-se em Nova Delhi nos dias 26 e 27 de janeiro. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chegam como convidados de alto nível para um encontro que as instituições europeias classificam como “histórico”.
Ao centro da agenda está o acordo de livre comércio entre UE-Índia, negociado por mais de duas décadas e, segundo fontes europeias, agora “mais próximo do que nunca”. Se concluído, o pacto criaria uma das maiores áreas comerciais globais, um mercado potencial de cerca de 2 bilhões de consumidores, com efeitos diretos sobre empresas, investimentos e emprego. Após o acordo com o Mercosul, a Europa volta a intensificar sua interação comercial com grandes atores, desta vez mirando o Leste.
O texto do acordo procura reduzir tarifas de forma substancial e abrir novas oportunidades em setores estratégicos como hidrogênio, equipamentos solares, maquinário e manufatura avançada. O valor estratégico desse entendimento reside, sobretudo, na possibilidade de construir cadeias de abastecimento mais resilientes e menos dependentes de atores dominantes — um movimento cuidadoso, quase um gambito diplomático para diversificar fontes e mitigar riscos sistêmicos.
Paralelamente ao comércio, o encontro marcará o lançamento da primeira parceria UE-Índia em segurança e defesa, comparável apenas aos acordos firmados com Japão e Coreia do Sul. Espera-se que o pacto fortaleça o diálogo sobre as ameaças prioritárias, estabeleça bases para o intercâmbio de informações classificadas e intensifique a cooperação operacional — da adoção de tecnologias antidrone à proteção de infraestruturas marítimas críticas. Trata-se de um reforço dos alicerces de uma segurança cooperativa, em que a tectônica de poder regional é recalibrada por parcerias pragmáticas.
O vertice deverá aprovar uma Agenda Estratégica conjunta para os próximos cinco anos, com mais de 100 iniciativas em sustentabilidade, energia limpa, tecnologia, inovação, mobilidade, governança global e conectividade. Entre as medidas previstas estão novos quadros para facilitar a mobilidade de estudantes, pesquisadores e trabalhadores qualificados, além de negociações sobre a eventual associação da Índia ao programa Horizon Europe.
No plano geopolítico, a União Europeia reafirmará sua posição sobre a invasão russa da Ucrânia, considerada “uma ameaça existencial para a Europa e para a ordem internacional baseada em regras”. Bruxelas reconhece a relação histórica de Nova Delhi com Moscou, mas solicitará que a Índia utilize sua influência para apoiar esforços de paz — um pedido diplomático que busca articular pressões calibradas, mais do que ruptura.
O caráter simbólico do evento não é menor: Costa e von der Leyen serão hóspedes de honra do Dia da República indiana, gesto que sublinha a profundidade aspirada para a parceria. Em um cenário global marcado por rivalidades, transição energética e avanços tecnológicos, UE e Índia ambicionam se apresentar como atores responsáveis e complementares — um novo corredor econômico Índia-Oriente Médio-Europa foi inclusive assinado em Nova Delhi, prevendo uma malha de ferrovias, portos e ligações energéticas, fruto de meses de negociações discretas.
Em suma, o encontro em Nova Delhi não é apenas uma troca de protocolos: é um movimento decisivo no tabuleiro das relações internacionais, onde a Europa tenta consolidar um eixo de influência e a Índia amplia seus alicerces de autonomia estratégica. Como em uma partida de xadrez bem jogada, cada ação será observada por atores cujo próximo movimento poderá redefinir a arquitetura de poder nas próximas décadas.






















