Por Marco Severini — Em um movimento que altera o equilíbrio diplomático no tabuleiro europeu, há uma crescente convergência entre os Estados-membros da União Europeia para sancionar e qualificar o Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana (conhecido como Pasdaran) como organização terrorista. A declaração de intenção foi confirmada hoje na chegada ao Conselho de Assuntos Exteriores em Bruxelas pelo ministro das Relações Exteriores italiano, Antonio Tajani.
Tajani explicou que o processo segue duas frentes: a composição imediata de uma lista de indivíduos e entidades ligados aos Pasdaran que sofrerão congelamento de bens e restrições de circulação, e o caminho político para a inclusão formal do Corpo das Guardas na lista de organizações terroristas da União. “Parece haver um acordo político já formado; a lista será aprovada. Haverá hoje uma decisão política, e a decisão concreta deverá ser tomada nas próximas semanas”, afirmou o ministro.
A posição da UE decorre, segundo os responsáveis europeus, da resposta violenta do regime iraniano às manifestações que tomaram o país nas últimas semanas. Tajani referiu-se a uma repressão que resultou em “milhares e milhares de mortos” entre os manifestantes — números que, ainda que amplos e parcialmente não verificados, desenham um quadro de intensidade e escala inaceitáveis para a diplomacia europeia.
Na mesma linha, a alta representante da União para a Política Externa, Kaja Kallas, declarou que novas sanções serão adicionadas e que se trabalha para colocar as Guardas “no mesmo patamar” de organizações como al-Qaeda, Hamas e Daesh. “Se um ator se comporta como um terrorista, deve ser tratado como tal”, afirmou, sublinhando que o instrumento sancionatório é também uma mensagem clara de custo político e econômico para a repressão interna.
O ministro francês, Jean-Noël Barrot, reforçou a dimensão punitiva da iniciativa: mais de 20 indivíduos e entidades terão bens congelados e sofrerão proibição de entrada no território europeu, segundo sua declaração. A França, disse Barrot, apoia a inclusão do Corpo das Guardas da Revolução na lista terrorista da UE, como forma de evitar impunidade por crimes cometidos durante a repressão. Ele também lançou um apelo direto às autoridades iranianas: libertar os presos políticos, pôr fim às execuções e permitir que o país volte a um mínimo de respeito pelos direitos fundamentais.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento calculado que redesenha, ainda que simbolicamente, linhas de influência e riscos no mapa euro-asiático. A decisão europeia funciona simultaneamente como ferramenta de pressão e como redefinição dos limites aceitáveis nas relações com Teerã — um tipo de “redesenho de fronteiras invisíveis” na tectônica de poder regional.
Restam perguntas práticas: como será implementada a listagem em termos jurídicos, quais implicações terá sobre atores econômicos e militares em solo europeu, e qual será o reflexo desse passo no cálculo de aliados e parceiros externos, notadamente na região do Golfo e entre atores com interesses divergentes no Irã. Nos próximos dias, o que se presume é um aprofundamento do alinhamento político entre capitais europeias rumo a decisões que já podem ser consideradas um movimento decisivo no tabuleiro diplomático.
Em resumo, a UE dá sinais de que está disposta a transformar condenações políticas em instrumentos concretos de responsabilização — um processo que, como em qualquer jogo de grande estratégia, precisa ponderar eficácia, riscos de escalada e a preservação de canais diplomáticos mínimos para evitar efeitos colaterais indesejados.






















