Por Marco Severini — Em um movimento de grande significado simbólico, mas limitado em termos financeiros diretos, a Comissão Europeia comunicou que não será criado um novo fundo específico para o aborto. Em resposta à petição cidadã que angariou mais de 1,2 milhões de assinaturas — a iniciativa My Voice, My Choice —, Bruxelas esclareceu que os Estados-membros podem recorrer aos instrumentos existentes da União para melhorar o acesso equitativo a serviços de saúde legalmente disponíveis e a preços acessíveis, incluindo serviços de aborto seguro.
No núcleo desta decisão está o Fundo Social Europeu Plus (FSE+). A Comissão afirmou, de forma inédita, que os recursos do FSE+ podem ser utilizados para garantir o direito ao aborto, desde que os Estados-membros o façam voluntariamente e em conformidade com as respetivas leis nacionais, incluindo a possibilidade de realocação de verbas já previstas nos programas FSE+.
Trata-se de uma vitória parcial para o movimento: não houve criação de um novo mecanismo financeiro nem um ato legislativo específico, mas houve o reconhecimento formal de que os fundos da UE podem ser mobilizados para assegurar o acesso ao aborto. Dez Estados-membros que apoiavam a petição — Áustria, Estónia, Finlândia, França, Luxemburgo, Polónia, Eslovénia, Espanha, Suécia e Bélgica — receberam agora uma indicação clara sobre esta possibilidade prática.
A comissária europeia com delegação para os Direitos Sociais, Roxana Minzatu, sublinhou que «os Estados-membros, naturalmente, permanecem responsáveis pelas suas políticas de saúde e pela organização e prestação dos serviços de saúde». Em linguagem mais diplomática: a iniciativa coloca uma peça no tabuleiro, mas a jogada final depende dos governos nacionais. Nas jurisdições onde o aborto não é regulado, a decisão comunitária não altera o terreno legal.
Por sua vez, a comissária para a Igualdade, Hadja Lahbib, saudou o feito como uma prioridade do mandato: «É uma das nossas prioridades fundamentais em matéria de igualdade para este mandato, que sem dúvida fará parte da nossa herança, e sobretudo salvará vidas humanas. Isto foi possível apenas graças à iniciativa dos cidadãos». A declaração reforça o valor simbólico e político do reconhecimento, mesmo na ausência de novos fundos.
Do ponto de vista estratégico, a posição da Comissão representa um movimento cauteloso no grande tabuleiro da diplomacia europeia. É uma jogada que preserva os alicerces legais da competência nacional em matéria de saúde, ao mesmo tempo em que abre uma via técnica para apoiar o acesso quando houver vontade política interna. Em termos de política prática, isto poderá traduzir-se em projetos-piloto, realocação de verbas e apoio a programas que facilitem a informação, transporte e cuidados pós-aborto dentro do quadro legal de cada Estado.
Em suma, a vitória é política e normativa, não financeira e automática. A tectônica de poder entre instituições europeias e Estados-membros permanece sensível — um redesenho de contornos invisíveis, mais do que uma mudança abrupta na geografia da legislação sobre o aborto. Para os defensores do acesso seguro, a carta da Comissão é um alicerce que pode, com decisões nacionais coerentes, converter-se em concreto apoio às mulheres. Para os governos opositores, é um lembrete de que o espaço europeu pode oferecer instrumentos tecnicamente disponíveis, porém condicionados à vontade soberana de cada Estado.






















