Por Marco Severini — A União Europeia coloca-se diante de um movimento estratégico que pode redesenhar linhas de contato no conflito ucraniano: a nomeação de um enviado especial para a Ucrânia com mandato específico para estabelecer um canal direto de diálogo com Vladimir Putin. No centro desse tabuleiro, emerge o nome do ex-presidente finlandês Sauli Niinistö, considerado atualmente a opção mais viável.
O peso atribuído a Niinistö não é casual. Além do capital reputacional acumulado em anos de atuação europeia, pesa a sua fluência em russo e uma formação sólida em matérias de defesa — atributos que, no léxico da diplomacia contemporânea, funcionam como peças de alto valor para abrir um canal com Moscou sem desmontar os alicerces das sanções. A ideia de um emissário com esse perfil teve origem em Helsinque há cerca de um ano e ganhou nova vida depois de declarações do presidente francês Emmanuel Macron, que reconheceu a necessidade de diálogo com o Kremlin para avançar rumo a uma solução.
Na lista de candidatos figuram também o ex-primeiro-ministro italiano Mario Draghi e a ex-chanceler alemã Angela Merkel. Ambos trazem peso político e experiência nas negociações internacionais, mas apresentam perfis distintos: Draghi, lembrado por posições firmes sobre a Rússia, é visto por alguns setores como menos indicado para uma missão que demanda credibilidade de interlocução direta; Merkel, por sua vez, acumula know-how em relações com Moscou, fruto de anos de contato diplomático.
Do ponto de vista institucional, a UE vive um momento de tensão entre presença e marginalização no processo de resolução do conflito. Se excluída das mesas de negociação, a União tende a perder influência decisória — daí a urgência política de costurar um mecanismo que mantenha o bloco dentro do jogo. Nomear um enviado especial da UE aparece, portanto, como manobra destinada a preservar canais de interlocução e a recolocar a Europa como ator relevante na tessitura das negociações.
No cenário político italiano, o subsecretário Fazzolari já aventou publicamente o nome de Draghi, mas a iniciativa gerou retórica crítica: rememoram-se decisões e frases marcantes do ex-premier, como declarações sobre o efeito das sanções e aforismos que polarizaram opiniões públicas e interlocutores internacionais. Para um papel que exige, sobretudo, um equilíbrio entre firmeza e capacidade de ouvir, algumas dessas memórias políticas são atributos ambíguos.
Do lado russo, o ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov reagiu com desdém às recentes aberturas de Paris, qualificando-as de “patéticas”. Afirmou que o Kremlin está disposto a ouvir propostas “se sérias”, e que Putin responderá ao telefone se entender haver substância nas iniciativas — uma resposta que traduz, em termos práticos, a necessidade de projetar credibilidade e gravitas em qualquer tentativa de mediação.
Em suma, a proposta de um enviado especial é menos um gesto de conciliação imediata e mais um movimento de reengenharia diplomática: busca preservar a voz europeia no tabuleiro, reorganizar alianças e criar um canal capaz de transformar propostas em negociações substanciais. Trata-se de uma jogada de paciência estratégica, onde o detalhe linguístico e a experiência militar diplomática pesam tanto quanto a autoridade política do nome escolhido.






















