Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, nas bordas do tabuleiro diplomático, os alinhamentos entre Europa e Teerã, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia deram hoje o aval político para a inclusão da Guarda Revolucionária Iraniana, conhecida como Pasdaran, na lista de organizações terroristas da UE. O anúncio oficial foi feito pela Alta Representante, Kaja Kallas, em sua conta na plataforma X.
“A repressão não pode ficar sem resposta”, declarou Kallas, enfatizando que regimes que recorrem à violência extrema contra seus próprios cidadãos corroem os alicerces da sua própria sobrevivência política. A decisão foi tomada após uma reunião do Conselho de Assuntos Exteriores, que obteve o consenso dos 27 Estados-membros — um sinal claro de unidade política de Bruxelas frente à crise.
Fontes diplomáticas presentes ao encontro confirmaram que a deliberação decorreu no período da manhã e representou um passo estratégico calculado: designar formalmente os Pasdaran como organização terrorista, numa resposta que combina simbologia política e medidas concretas de pressão.
O contexto que motivou a medida é sombrio. Diversos meios de comunicação, entre os quais Iran Internationale e Time, apontam para mais de 36 mil vítimas nas recentes ondas de protesto contra o regime, um balanço que teria sido parcialmente encoberto pelo total blackout de internet imposto pelas autoridades teocráticas. Parte substancial da violência é atribuída, segundo relatos e análises independentes, à ação direta dos Pasdaran.
A reação de Teerã foi imediata e enérgica. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, classificou a decisão europeia como um “grave erro estratégico”, prenunciando um aprofundamento das fricções diplomáticas entre o Irã e o bloco comunitário.
Quem são os Pasdaran? Nascida na efervescência revolucionária em torno de Khomeini, a instituição formalmente conhecida como Corpo das Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) congrega aproximadamente 250 mil efectivos. Ao longo das décadas transformou‑se no centro de gravidade do poder na República Islâmica, inserindo‑se de maneira capilar nas estruturas políticas, económicas e de segurança. Ao seu lado opera o contingente paramilitar dos Basij, e ambos respondem diretamente ao Supremo Líder Ali Khamenei, figura central da arquitetura de poder do regime.
Nos últimos meses, mesmo do exílio, o príncipe Reza Pahlavi apelou publicamente aos membros do corpo para que desobedecessem às ordens do Supremo Líder e abrandassem a repressão — um apelo que revela a percepção de que existem fissuras potenciais na cadeia de comando, ainda que por ora não se tenha verificado uma adesão ampla a esse chamado.
Paralelamente à designação dos Pasdaran, o Conselho Europeu aprovou sanções restritivas contra mais 15 indivíduos e seis entidades acusados de graves violações dos direitos humanos durante a repressão. Entre os nomes citados pelas medidas estão Eskandar Momeni — indicado como Ministro do Interior e chefe do Conselho Nacional de Segurança —, além de figuras do sistema judicial como Mohammad Movahedi‑Azad, Procurador‑Geral, e o juiz Iman Afshari.
Em termos de geopolítica, trata‑se de um movimento de alto impacto: a UE transforma em sanção jurídica um posicionamento político que já vinha sendo exigido largamente pela diáspora iraniana e por oposições internas. No tabuleiro da diplomacia, o passo europeu equivale a um movimento decisivo que busca restringir a manobra estratégica de Teerã, ao mesmo tempo em que preserva canais institucionais para um eventual diálogo futuro. As próximas semanas dirão se este gesto consolida um novo eixo de pressão coordenada ou se apenas desloca para outras frentes a tensão entre Irã e Ocidente.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica para a Espresso Italia.






















