Por Marco Severini — A União Europeia deu ontem um movimento decisivo no tabuleiro diplomático: os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE aprovaram a inclusão da Guarda Revolucionária Iraniana, conhecida como Pasdaran, na lista de organizações terroristas. O anúncio foi feito pela primeira-ministra da Estónia e alta representante da UE para a política externa, Kaja Kallas, que sublinhou nas redes sociais que “a repressão não pode ficar sem resposta”.
Na margem do Conselho de Ministros em Bruxelas, o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, confirmou que houve consenso entre os Estados-membros e explicou a mudança de postura italiana: as imagens e relatos das mortes massivas ocorridas no interior do Irã — “milhares, talvez trinta mil”, nas palavras do ministro — forçaram uma reação de condenação. Tajani enfatizou, no entanto, que a designação não fecha as vias do diálogo com Teerã.
De Teerã, a reação foi imediata e dura. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, qualificou a decisão europeia como “um grave erro estratégico”. Em mensagem publicada na plataforma X, Araghchi argumentou que a Europa, ao alinhar-se com iniciativas de pressão como o «snapback» — isto é, a possível reintrodução de sanções nucleares — estaria a agravar tensões numa região já frágil. “A Europa está a alimentar o fogo”, advertiu, sublinhando as consequências económicas e políticas que uma escalada traria ao próprio continente, nomeadamente através do efeito dominó sobre os preços da energia.
Em resposta imediata, a cadeia estatal Press TV noticiou que as forças navais dos Pasdaran realizarão exercícios militares no Estreito de Hormuz nos dias 1 e 2 de fevereiro. O estreito é uma artéria estratégica global: por ali transita perto de 20% do petróleo comercializado mundialmente. A manobra iraniana, ainda que anunciada como exercício, tem o potencial de perturbar o tráfego marítimo internacional e tensionar mercados energéticos já voláteis.
Do ponto de vista geo-estratégico, trata-se de um momento de tectônica de poder. A decisão europeia representa um reposicionamento claro no eixo de influência regional e constitui um movimento calculado no tabuleiro, que visa penalizar uma força militar cujo papel extraconvencional extrapola as fronteiras do Irã. Ao mesmo tempo, abre-se um corredor de risco: uma resposta militar ou coercitiva de Teerã poderia desencadear consequências indiretas sobre a segurança energética da Europa e sobre rotas comerciais vitais.
Importa notar a nuance diplomática: a rotulagem como organização terrorista não anula formalmente a possibilidade de diálogo. Como num jogo de xadrez, há peças que se sacrificam para preservar posições maiores — mas cada sacrifício altera o equilíbrio. A União Europeia confronta-se com um dilema clássico de Realpolitik: afirmar princípios de responsabilidade e direitos humanos enquanto minimiza a exposição a choques económicos e a risco de escalada militar.
As próximas semanas serão decisivas. Monitorizar-se-ão, em paralelo, os desenvolvimentos nas capitais europeias, as reações em Teerã e a dinâmica nos mercados de energia. Se a região entrar num ciclo de retaliação, os alicerces frágeis da diplomacia poderão sofrer abalos duradouros, com efeitos para além do imediato — um redesenho de fronteiras invisíveis no mapa da influência geopolítica.
Em suma, a inclusão dos Pasdaran na lista de organizações terroristas da União Europeia é um movimento estratégico de alto risco, com implicações políticas, económicas e militares que exigirão leitura atenta e ação calibrada por parte dos estados europeus.






















